Coréia do Sul testa seu HANBIT-TLV em Alcântara

Foguete da INNNOSPACE pode abrir possibilidades no setor espacial do Brasil

Concepção artítica do lançamento

A Innospace, startup sul-coreana especializada no desenvolvimento de motores híbridos, anunciou o lançamento do Hanbit-TLV – um foguete de motor de estágio único de 8.400 kg com 16,3 metros de comprimento – do Centro Espacial de Alcantara no Maranhão, nordeste do Brasil, às 14:52 locais no domingo, 19 de março de 2023. O veículo (o 500° lançamento feito do espaçoporto) transportava a carga útil brasileira SISNAV em um voo que durou 4 minutos e 33 segundos. O teste, realizado pela equipe coreana e com observação e participação da Força Aérea Brasileira, pode chancelar o polígono de lançamento de Alcântara como local apto a abrigar lançamentos de foguetes orbitais privados de várias nacionalidades – o que poderia a médio e longo prazo abrir oportunidades para que brasileiros tenham acesso ao espaço.

“Anunciaremos os resultados do desempenho de voo do motor e se a missão da carga útil terminará com sucesso após uma análise abrangente dos dados de voo”, disse a Innospace em um texto para repórteres. O veículo de lançamento suborbital foi carregado com o sistema de navegação inercial dos militares brasileiros – SISNAV – que pesa 20 quilos. Se os testes forem concluídos com sucesso e a operação comercial começar, a Innospace poderá se tornar a primeira empresa privada na Coreia do Sul a oferecer serviços de satélite para órbita.

Foguete decola de Alcântara

Declarações oficiais da mídia da Força Aérea Brasileira

O Chefe do Subdepartamento Técnico do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), Brigadeiro Engenheiro Luciano Valentim Rechiuti, disse que a Operação, denominada Astrolábio, “foi resultado da parceria entre o DCTA e a empresa sul-coreana INNOSPACE e demonstra a capacidade nacional em desenvolver tecnologias espaciais e lançar foguetes”. “O sucesso deste lançamento binacional, envolvendo o Brasil e a Coreia do Sul, ratifica que o Centro está totalmente apto, tanto do ponto de vista técnico-operacional, quanto do ponto de vista administrativo, para realizar lançamentos de foguetes nacionais e estrangeiros em praticamente quaisquer épocas do ano, com precisão e segurança. Afinal, o Centro conta com equipes especializadas e altamente qualificadas, bem como infraestruturas e sistemas de preparação, lançamento e rastreio plenamente operacionais”.

“Estamos extremamente felizes com o resultado, pois ele reflete o trabalho de muitos profissionais envolvidos e diversos desafios superados ao longo do processo”, pontuou o Diretor do CLA, Coronel Engenheiro Fernando Benitez Leal.

Perfil de ascensão do foguete

O Presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Carlos Augusto Teixeira de Moura, também celebrou o momento e ressaltou que o CLA já foi concebido com a ideia de abrigar não só o nosso Programa Espacial, mas também outros operadores. “Concretizamos o ideal lá dos anos 80, pois temos agora um operador privado internacional trabalhando aqui, o que abre a oportunidade de o Brasil efetivamente se inserir no mercado internacional de transporte espacial”, comentou.

Para o Diretor-Geral do DCTA, Tenente-Brigadeiro do Ar Maurício Augusto Silveira de Medeiros, a Operação Astrolábio mostrou ao Brasil e ao mundo a capacidade do CLA, que ainda será ampliada por meio do Centro Espacial de Alcântara (CEA).

“Este lançamento quebrou um paradigma, pois poderemos ter diversas operações comerciais, a partir do CEA, nos colocando entre os centros espaciais reconhecidos mundialmente e inseridos nesse mercado tão grande e que se desenvolve a cada dia mais, que é o mercado espacial. O lançamento do HANBIT-TLV e as parcerias futuras trarão uma série de benefícios, pois são receitas que vêm para o município de Alcântara, para o estado do Maranhão e para o Brasil”, concluiu.

Foguete horas antes do lançamento

Carga útil SISNAV

Plataforma SISNAV

O SISNAV é um experimento tecnológico descrito como “essencial para a navegação automática de foguetes, que permitirá ao Brasil ser independente no desenvolvimento de foguetes-portadores de tamanhos variados”. O Projeto SISNAV faz parte do Sistema de Navegação e Controle (SISNAC), projetado para o Veículo Lançador de Microssatélites (VLM) da FAB, para a colocação de satélites de pequeno porte em órbita terrestre baixa e que acabou por fazer parte do chamado conceito “New Space” [*].

Algumas das aplicações visadas no plano que englobou o SISNAV foram: veículo lançador VLS-1, plataformas e aeronaves suborbitais (Ministério da Defesa/DCTA) e satélites (Ministério da Ciência e Tecnologia/INPE). O ex-chefe do Grupo de Controle do DCTA/IAE, Fausto O. Ramos, cita que o Dr. Waldemar de Castro (ex-pesquisador do DCTA, hoje aposentado), o embrião do SIA surgiu em 2002, com o Projeto SISNAV (sinônimo de “sistema de navegação inercial”, INS). O SISNAV visava fornecer um sistema inercial ao veículo lançador VLS-1. No entanto, naquela época não havia recursos suficientes para levar adiante a iniciativa. Então, em 2004, o Brigadeiro Thiago Ribeiro (outro apoiador do SISNAV) fez uma proposta ao DEPED (hoje DCTA ), referente a um apoio financeiro ao desenvolvimento de sistemas inerciais, o que foi conseguido em 2005 por meio de fundos setoriais de defesa.

Planos da Innospace

A empresa coreana planeja desenvolver dois veículos de lançamento adicionais capazes de ter uma carga útil entre 150 quilos e 500 quilos, respectivamente. A Innospace foi fundada pelo atual CEO em 2017. Desde então, a startup arrecadou 55,2 bilhões de won (US$ 42 milhões) em fundos de investimento. O desenvolvedor planeja abrir o capital da Kosdaq secundária pesada em tecnologia da Coréia em 2024 por meio da faixa de listagem especial de tecnologia.

Corte longitudinal conceitual do HANBIT-TLV
O sistema de lançamento inclui uma plataforma modular Coalesced Launch System montada sobre o pavimento, com estruturas de apoio e estabilização pivotantes e uma mesa de disparo com defletor de chamas. O foguete é acoplado à lança instaladora, recebe o anel adaptador na baia de motores, que faz a interface com a mesa de lançamento; então a lança é erguida na posição vertical e posiciona o foguete na mesa. Na decolagem, o adaptador fica preso à mesa e libera o foguete.

A startup inicialmente pretendia lançar o foguete em 8 de março, mas isso não aconteceu devido a um problema apenas 10 segundos antes do disparo. A empresa então corrigiu o problema e esperou até um clima favorável no domingo para o lançamento. “Desenvolver um veículo lançador espacial é um processo de constante superação de variáveis. A valiosa experiência e know-how obtidos durante o lançamento de teste se tornarão nossa principal tecnologia e um trampolim para nos tornarmos uma empresa profissional com tecnologia independente e recursos de gerenciamento de lançamento”, disse Kim Soo-jong, CEO da Innospace. A decolagem de domingo ocorreu cerca de três meses depois que o projeto da startup coreana teve que ser suspenso no mesmo local devido a um problema climático, problemas com uma válvula de resfriamento e erros de conexão entre sistemas. O lançamento da Innospace foi a primeira decolagem de foguete do setor privado da Coreia. Segundo a empresa, o Hanbit-TLV também foi o primeiro lançamento mundial de um foguete híbrido.

O lançamento é um projeto de teste para avaliar o desempenho do motor de foguete híbrido, que está planejado para ser usado como motor de primeiro estágio do foguete Hanbit-Nano posteriormente. A Innospace está desenvolvendo o Hanbit-Nano, que deverá ter uma carga útil de 50 quilos, para entrar no mercado de lançamento de pequenos satélites comerciais em 2024. Segundo a Innospace, sua tecnologia de foguete híbrido de combustível sólido e oxidante líquido tem grandes vantagens em custando menos e levando menos tempo para construir um motor, garantindo a segurança, pois a tecnologia evita que o sistema exploda em caso de pane.

O foguete tem motor híbrido, com um tanque de oxigênio líquido alimentando a queima do composto de parafina sólido

[ * ] “New Space” é o nome com que se convencionou chamar as iniciativas de lançamento e operação de satelites e espaçonaves usando tecnologias avançadas, com exploração de aparelhos de geralmente pequeno tamanho, simplicidade de construção e controle, e participação de empresas privadas controlando todo o processo de satelização de cargas, desde a construção do lançador até a colocação da nave em órbita. Apesar do nome, “New Space” é um conceito antigo, que tem suas raízes no primeiro foguete totalmente comercial do mundo, o Conestoga americano dos anos 1980. Ao contrário de explorar satélites de grande tamanho e longa vida útil, os partidários do “New Space” alardeiam as vantagens de preço e acessibilidade de satélites menores, com vida útil limitada. As empresas de grande porte, comprometidas em atividades de larga escala, porém, passam longe desta filosofia – seus satélites de comunicação e sensoriamento remoto ainda são dimensionados para longos periodos de atividade e para prover um volume grande de dados – para isto precisam de grandes recursos de eletricidade e de reservas de propelentes – para garantir vidas uteis de cerca de 15 anos, permitindo maior retorno financeiro frente os investimentos. A miniaturização é concentrada nos eletronicos e a economia de massa se concentra em materiais estruturais mais leves e mecanismos de extensão de apêndices com um mínimo de partes móveis. Para iniciativas modestas, como satélites de estudantes, pequenas plataformas espaciais para comercialização de imagens para uso em agricultura e ensaios técnicos, porém, essa abordagem simplista funciona bem. Outro aspecto beneficiado pelo conceito é a padronização de tamanhos (os chamados “U”, de ‘unidade’ para os cubesats – satélite em forma de cubo de 10 x 10 cm), cujo tamanho universalmente aceito facilita a produção de cargas uteis a serem instaladas em seu interior, bem como facilita o projeto dos ‘dispensadores’ – os mecanismos responsaveis por ejetar o satélite no espaço. Cubesats podem ser lançados solitariamente ou em grupos, frequentemente de carona em lançamentos de satélites maiores.

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Autor: homemdoespacobrasil

Astronautics

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