SpaceX deve lançar o primeiro lote de Onewebs no dia 6

Foguete decolará de Cabo Canaveral com 40 satélites

Grupo de satélites no primeiro segmento do adaptador-ejetor a ser montado no topo de segundo estágio do foguete

A SpaceX deve lançar em 6 de dezembro de 2022 às 22:37 UTC (19:37 de Brasília) o primeiro lote contratado de satélites Oneweb, efetivando a compra de oportunidades de lançamento para a gigante de telecomunicações indo-britânica. Anteriormente, parte das espaçonaves da constelação era lançada por foguetes russos Soyuz, mas o contrato foi rompido com a invasão russa na Ucrânia de fevereiro passado. Serão lançados quarenta satélites por um foguete Falcon 9 v1.2 BL5 decolando da plataforma LC-39A em Cabo Canaveral, com cada um pesando 147 kg – levando a uma massa total de 5.880 kg. O primeiro estágio do Falcon 9 retornará à Zona de Aterrissagem 1 (LZ-1) na Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral.

Já existem 460 dos 648 satélites planejados em órbita. Cada veículo deve ter uma largura de banda de pelo menos oito gigabits por segundo para oferecer acesso à Internet para usuários de linhas fixas e plataformas móveis. Os satélites foram fabricados pela Airbus e devem operar em órbita 1.200 km acima da superfície da Terra por pelo menos sete anos.
A OneWeb entrou em 2022 esperando alcançar cobertura global em agosto. No entanto, a invasão da Ucrânia pela Rússia interrompeu os seis lançamentos do Soyuz com os quais a operadora de constelação de banda larga contava para completar sua constelação de 648 unidades este ano. “Com esses planos de lançamento, estamos a caminho de terminar de construir nossa frota completa de satélites e oferecer conectividade robusta, rápida e segura em todo o mundo”, disse o CEO da OneWeb, Neil Masterson, em comunicado por escrito.

Satélite Oneweb

Em 21 de março passado, a empresa britânico-indiana anunciou que encerrou o negócio com os russos e fechou contrato com a SpaceX americana para lançar sua constelação. A OneWeb (apoiada pelo SoftBank – uma rival do sistema Starlink da mesma SpaceX) disse que os lançamentos com a empresa de elon Musk começariam ainda este ano. A Rússia há muito desempenha um papel descomunal no negócio espacial, lançando inúmeras missões do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Mas agora, a reação contra a invasão da Ucrânia colocou esse papel em risco. Em fevereiro, a empresa de internet dissera em uma declaração que seu conselho “votou para suspender todos os lançamentos de Baikonur”.

Falcon 9 tem capacidade de colocar 22,8 toneladas em órbita baixa, porém a carga da Oneweb para esta missão será de 5.880 kg

Naquela época, a agência espacial russa disse que o foguete Soyuz-2.1b – que já estava instalado na plataforma de lançamento – não poderia decolar a menos que o governo britânico alienasse sua participação de 45% na OneWeb, que comprou por US $ 500 milhões há alguns anos como parte de um plano de resgate para a empresa falida. A agência russa também exigiu uma garantia de que os satélites do lançamento não seriam usados ​​para fins militares. De fato, os russos sabiam que essas exigências não seriam atendidas – o que leva a crer que foram feitas com o objetivo de efetivamente encerrar a parceria, apesar das perdas monetárias.

O cerco que a mídia e as empresas do Ocidente (leia-se Estados Unidos) fazem à Rússia podem acabar empurrando o país e se alinhar de vez aos chineses, que podem suprir parte dos negócios perdidos.

A Rússia está rapidamente se separando de grande parte da indústria espacial global em resposta às sanções ocidentais devido à invasão da Ucrânia. Empresas de pesquisa e investimento com foco na exploração comercial de lançamentos vêem as empresas americanas como beneficiárias líquidas, com a SpaceX como “a vencedora clara” no mercado global. Outras empresas que prestam serviços para a estação espacial internacional estão prontas para se beneficiar – com a Iridium, por outro lado, como um provável ganhador em comunicações por satélite. Rússia e a Ucrânia há décadas contribuem significativamente para a indústria espacial global. Ambas são potências de experiência em foguetes e propulsão, oferecendo serviços de lançamento e sistemas de motores para clientes em todo o mundo. A agência russa Roskosmos, com seus foguetes Soyuz, tem sido um dos principais oferecedores de lançamentos do setor – colocando satélites, carga e tripulação em órbita.

Porque o cenário atual não é se surpreender

A SpaceX já vem há muitos anos trabalhando nos bastidores para roubar os clientes não só da Rússia como de concorrentes dos próprios EUA no mercado de satélite, usando as mesmas técnicas antiéticas que Boeing e Lockheed empregam há décadas.

A história de ojeriza de parte da comunidade política americana à Rússia remonta ao ano 2000, em meio ao ambiente pós-Guerra Fria, quando os empreiteiros de defesa dos EUA começaram a usar o motor russo RD-180, barato e eficiente, para lançar foguetes militares americanos. Depois, com Vladimir Putin se opondo aos interesses americanos na Síria, Crimeia e em todo o mundo, o uso de tecnologia russa para lançar satélites secretos e outras cargas sensíveis passou a ser cada vez mais visto como uma responsabilidade geopolítica e de segurança. Autoridades de defesa diziam que não havia substituto disponível, no entanto. Alguns legisladores tentaram forçar o Pentágono a parar de confiar nos motores russos, tentando aprovar uma disposição para fazer isso em um projeto de lei de gastos com defesa foi debatido no plenário do Senado. Outros legisladores se opuseram veementemente a esse esforço. Naquela época a SpaceX ainda não existia, mas o seu dono já se imbuía do desejo de criar uma empresa espacial e já se preparou para entrar no negócio de lobby junto aos legisladores.

Havia argumentos substantivos de ambos os lados. Mas, como acontece muito no Congresso americano, o que estava se desenrolando era muito mais uma briga paroquial, colocando legisladores ligados às empresas que usam os motores russos contra legisladores ligados à empresa que se beneficiaria de uma proibição. Tudo acontecia em um cenário de angariação de fundos, contribuições políticas e lobby, que se prolongaria pelos anos seguintes, até meados da presente década, em 2016, quando o então senador John McCain liderou a opção de parar de usar os motores russos, argumentando que, ao comprá-los, os EUA estavam beneficiando Putin e seus aliados. “A compra desses motores oferece benefícios financeiros aos comparsas de Vladimir Putin, incluindo indivíduos sancionados pelos Estados Unidos, e subsidia a base militar-industrial russa”, disse o republicano do Arizona no plenário do Senado na época. “Isso é inaceitável em um momento em que a Rússia continua a ocupar a Crimeia, desestabilizar a Ucrânia, ameaçar nossos aliados da OTAN, violar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário de 1987 e bombardear rebeldes moderados na Síria.”

McCain: contra a Rússia há pelo menos uma década

McCain (1936-2018) há muito se manifestava contra os russos. Sua campanha eleitoral também recebeu US$ 10.000 em contribuições do comitê de ação política da SpaceX, a empresa de foguetes iniciada pelo bilionário Elon Musk, segundo o OpenSecrets.com, que compila dados eleitorais federais. A SpaceX também era doadora de um valor não especificado mas inferior a US$ 24.999 para o McCain Institute, uma fundação com o nome do senador da Arizona State University. A empresa de Musk se beneficiou da proibição de motores russos porque eles eram usados ​​por seu principal concorrente, a United Launch Alliance, joint venture das empresas de defesa Boeing e Lockheed Martin. A Boeing está sediada em Chicago, e a United Launch Alliance monta seus foguetes em uma fábrica em Decatur, Alabama.

Musk ‘doou’ US$ 2.500 (admitidos) para o deputado Kevin McCarthy

A SpaceX estava desde então tentando entrar no mercado de lançamentos militares, tendo conquistado seu primeiro contrato militar em abril de 2016. Elon Musk também contribuiu com US$ 2.500 para o deputado Kevin McCarthy, da Califórnia, o principal patrocinador da proibição na Câmara, que se proclamou amigo e defensor de Musk. Com as restrições finais impostas à Rússia por conta da guerra na Ucrânia, a empresa do bilionário ganhou oficialmente vários contratos, uma vez que a ULA ainda peleja para colocar em atividade seu novo foguete Vulcan, e os demais concorrentes americanos não tem foguetes operacionais – nem nos EUA nem na Europa – em condições de suprir a demanda de cargas em lote como as da Oneweb.

Um assessor de McCarthy disse que o distrito do político tinha uma presença significativa no negócio de lançamentos espaciais e que McCarthy acreditava que uma dependência contínua de foguetes russos ameaça os interesses de segurança nacional dos EUA. Em 2016, a porta-voz de McCain, Rachel Dean, recusou-se a abordar as doações, mas disse: “O secretário de Defesa e o diretor de inteligência nacional confirmaram que os Estados Unidos podem atender ao seu acesso garantido aos requisitos espaciais sem o uso de motores de foguete russos”.

Quando se trata de lobby e contribuições políticas, as empresas que usavam os motores russos RD-180, Boeing e Lockheed, têm poucos iguais em Washington. E eles também fizeram suas vozes serem ouvidas sobre esta questão. McCain ganhou uma proibição temporária em 2014, depois que a Rússia invadiu a Crimeia. Mas em um projeto de lei de gastos no início de 2016, o Congresso suspendeu essa medida.

Dois senadores lideraram a luta para suspender a proibição e se opor ao esforço de McCain para acabar com a dependência do motor russo: Richard Shelby, republicano do Alabama, e Richard Durbin, democrata de Illinois.

Os executivos da Boeing foram o maior contribuinte de Shelby associado a uma única empresa, tendo contribuído com US$ 136.400 de 2011 a 2016 para seus vários fundos, que é administrado pelo não-partidário Center for Responsive Politics, um bom grupo governamental. Os executivos da Boeing também doaram US$ 58.500 para os fundos de campanha e liderança de Durbin de 2011 a 2016, tornando-os coletivamente um de seus principais doadores corporativos.

Quando Durbin foi reeleito pela última vez em 2014, os executivos da Lockheed arrecadaram US$ 29.600, tornando-o o principal destinatário de seu dinheiro no Senado.

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Autor: homemdoespacobrasil

Astronautics

Uma consideração sobre “SpaceX deve lançar o primeiro lote de Onewebs no dia 6”

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