Rússia lança amanhã de Baikonur um satélite iraniano e outros

… e rumores indicam que ‘Khayyam’ espionaria a Ucrânia ocupada

Resumo do lançamento

Um foguete Soyuz-2.1b está instalado no complexo de lançamento 6 da Área 31 do cosmódromo de Baikonur com a espaçonave iraniana Khayyam para sensoriamento remoto e mais dezesseis pequenos satélites ‘passageiros’. O lançamento do foguete com a espaçonave da República Islâmica do Irã e um grupo de 38 satélites de dezoito países está agendado para 9 de agosto de 2022 às 11h52:38, horário de Nur-Sultan (05:52:38 UTC, ou 01:52:38 Brasília). “O foguete Soyuz-2.1b com a espaçonave Khayyam foi transferido esta manhã às 07h30, hora local, por linha férrea do edifício de montagem e teste 40 (MIK 40) e instalado no lançador nº 6 do local 31 na posição vertical”, disse a mídia do cosmódromo na última sexta-feira. Os satélites devem ser colocados em uma órbita síncrona com o sol circular de 500 km, inclinada em 97 graus em relação ao equador.

O trabalho de pré-lançamento está sendo realizado conforme o contrato da empresa Glavkosmos e realizado conjuntamente por representantes dos clientes e subsidiárias da Roskosmos – a fábrica de foguetes RKTs Progress, a NPO Lavochkin, construtora do estágio Fregat e o centro de infraestrutura terrestre TsENKI.

De acordo com a assessoria de imprensa da administração da localidadeb de Inta, em conexão com o lançamento do foguete, é possível a queda das partes do veículo lançador, bem como a ocorrência de incêndios naturais nos território de Pechora, Inta, Usinsk e Vorkuta.

Foguete de 314 toneladas sendo rebocado pela carreta férrea TUA do prédio de montagem e teste para a plataforma

A espaçonave Khayyam é um satélite de sensoriamento remoto terrestre (ERS, ou Earth resources satellite) fabricado por russos, e foi projetado para obter imagens com alta precisão – de até um metro. O satélite será usado no interesse do Irã para monitorar a produtividade agrícola do país e questões ambientais. A data de lançamento foi decidida para coincidir com uma homenagem a um matemático persa do Século XII conforme um acordo de quase quatro anos com o Irã. As notícias iniciais eram de que a Rússia concordou em construir e operar o sistema Kanopus-V, que incluiria uma câmera de alta resolução que daria a Teerã recursos sem precedentes, incluindo monitoramento quase contínuo de locais sensíveis em Israel e no Golfo Pérsico.

O projeto de satélite russo-iraniano foi anunciado publicamente em agosto de 2015, quando uma empresa iraniana assinou um acordo preliminar com a VNIIEM (fabricante da plataforma de satélite) e a Barl (empresa que fornece a carga óptica). O satélite seria baseado na plataforma Kanopus-V da VNIIEM e viajaria como co-passageiro em um foguete Soyuz. Isso ocasionalmente mencionado na imprensa russa até meados de 2017, quando não mais surgiram informações, provavelmente porque se tornou politicamente muito sensível. Em maio de 2018, a empresa Barl foi colocada na lista de sanções dos EUA, presumivelmente por causa do acordo de satélite iraniano.

No início deste ano, descobriu-se que um projeto do VNIIEM descrito em alguns documentos em 2018-2019 apenas como “Projeto 505”, ou Proyekt 505 era de fato o projeto russo-iraniano. Isso pode ser determinado a partir de duas apresentações feitas na câmara alta do parlamento russo em fevereiro passado, em que se discutiram planos para o que foi chamado de “primeiro satélite comercial de sensoriamento remoto da Rússia para um parceiro estrangeiro”. O parceiro não foi identificado, mas pode-se facilmente deduzir das informações ali fornecidas que é o Irã. O satélite pôde ser visto em dois slides mostrados durante essas apresentações. Ele pesa 650 kg e será lançado em uma órbita síncrona do Sol de 490 por 525 km. Tem uma resolução máxima de 0,75 m. O satélite foi supostamente programado para ser lançado neste verão no hemisfério norte, e neste caso coincidiria com o lançamento do Khayyam.

Concepção artística do Khayyam em órbita, mostrando modificações no chassi básico do Projeto 505

Rumores de uso do satélite iraniano na guerra da Ucrânia

No entanto, corre no Ocidente a suspeita de que os iranianos podem não ser capazes de assumir o controle do satélite imediatamente. A Rússia, que tem investido para alcançar seus alvos militares durante a invasão de cinco meses na Ucrânia, teria dito a Teerã que planejava usar o satélite por alguns meses ou mais para reforçar a vigilância de instalações militares no conflito, segundo dois funcionários russos teriam revelado sob anonimato, devido ao segredo envolvida na coleta de inteligência. A Embaixada da Rússia em Washington se recusou a comentar. O governo Biden está acompanhando de perto a pesquisa de satélites do Irã, que está desenvolvendo uma frota de mísseis cada vez mais poderosa. Funcionários do governo se recusaram a comentar o lançamento ou as intenções de Moscou de usar o satélite para monitorar os campos de batalha na Ucrânia.

Porém, na última semana, a Agência Espacial Iraniana disse que nenhum país usaria imagens do seu satélite para fins militares, segundo agência estatal iraniana IRNA. Antes disso, o jornal americano The Washington Post afirmou que as autoridades russas estavam se preparando para lançar um satélite por ordem do Estado, mas o usarão por vários meses para monitorar alvos militares na Ucrânia. A agência iraniana observou que esses relatórios não são verdadeiros. “O envio de comandos e o recebimento de informações deste satélite será realizado inteiramente com um algoritmo criptografado já embutido nele pelos pesquisadores da organização espacial, e neste processo nenhum outro país poderá acessar suas informações. Este satélite não se destina ao uso militar por outros países”.

Poster associado aos satélites cujo contrato de lançamento foi intermediado pela firma Sputnix

A agência também afirmou que todas as ordens relacionadas à gestão e operação do Khayyam serão organizadas e transmitidas imediatamente após o lançamento por especialistas iranianos localizados nas bases do Ministério das Comunicações e Tecnologias da Informação no Irã. Anteriormente, os EUA disseram que não viam sinais de que a Rússia estivesse comprando drones do Irã, apesar das primeiras alegações de que as autoridades russas estavam planejando fazê-lo. Antes disso, o jornal britânico The Times disse que a Rússia estava atacando satélites em órbita terrestre e interferindo na transmissão de sinais de GPS usados ​​por aeronaves, navios, carros e smartphones. O Washington Post também informou que a Rússia não está entregando 400 aviões de passageiros em leasing para empresas ocidentais, e os legítimos proprietários das aeronaves duvidam que possam reavê-las.

Satélites-acompanhantes

Como carga útil associada estão dezesseis pequenas espaçonaves de fabricação russa: CubeSX-HSE2, CYCLOPS, MIET-AIS, Polytech Universe 1, Polytech Universe 2, ReshUCube-1, Siren, Skoltech B1, Skoltech B2, UTMN, VIZARD-SS1, Geoscan-Edelweiss, ISOI, KAI-1, Kuzbass-300, Monitor-1. “As naves russas são projetadas para pesquisa científica e tecnológica, incluindo o desenvolvimento de tecnologias para implementação de canais de comunicação entre satélites, medição do nível de radiação eletromagnética, sensoriamento remoto da Terra e monitoramento da situação ambiental”, disse a corporação estatal.

“Juntamente com o Khayyam está planejado lançar os pequenos satélites russos associados – CubeSX-HSE-2, Monitor-1, UTMN, CYCLOPS, Siren, KAI-1, Kuzbass-300, Skoltech- B1, Skoltech-B2, Polytech Universe-1, Polytech Universe-2, Vizard, Geoscan-Edelweiss, MIET-AIS, ISOI e ReshUCube”, anunciou a Roskosmos. Os pequenos satélites foram criados na Universidade Politécnica Pedro, o Grande, de São Petersburgo, na Universidade Técnica do Estado Báltico Voenmeh DF Ustinov, no Instituto de Pesquisa de Física Nuclear DV Skobeltsyn, na Universidade Estatal de Tyumen, na Universidade Estatal de Ciência e Tecnologia MF Reshetnev da Sibéria e outras universidades, bem como nas empresas Geoscan, Sputnix e outras organizações:

  1. ReshUCube-1. Universidade Estatal da Sibéria.
    A carga útil é uma câmera de sensoriamento remoto; um “laboratório espacial reconfigurável” (um conjunto de sensores e ERI, possivelmente uma continuação do programa Yubileiny).
  2. Kuzbass-300 SXC3-218 KUZSTU da KuzGTU.
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    A carga útil é câmera de sensoriamento remoto (detecção de incêndios florestais), e um equipamento de transmissão de mensagens de voz e imagens.
  3. Vizard-SS1 (SXC3-215 VIZARD). NIS LLC, VIZARD LLC, escolas nº 1522 e nº 2086 em Moscou.
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    A carga útil é um equipamento AIS e KINEIS, para rastreamento de navios e outros objetos no Oceano Ártico.

4.SXC3-21? UTMN. Universidade Estatal de Tyumen.
Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
A carga útil é uma câmera de sensoriamento remoto para estudo de derramamentos de óleo no Ártico.

  1. CUBESX-HSE-2. NRU HSE.
    A carga útil é uma câmera de sensoriamento remoto e um equipamento AIS. Monitoramento da superfície terrestre na região do Ártico, acompanhando o movimento de navios ao longo da Rota do Mar do Norte. Também está equipado com um motor elétrico de plasma VERA.
  2. SIRENE SXC3-217. NRU BelGU.
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    A carga útil é um módulo composto por uma cápsula com brotos lilás fixados com uma solução especial de gel nutriente, além de câmeras e LEDs.
  3. KAI-1 – KNITU-KAI, LLC “NILAKT DOSAAF”, ANO DPO KIRO )
    A carga útil são câmeras panorâmicas, um medidor de temperatura feito com base em uma rede de Bragg de fibra, e um repetidor de 145/435 MHz (indicativo de chamada RS26S).

8 e 9. Polytech Universe-1, Polytech Universe-2. Escola Superior de Física Aplicada e Tecnologias Espaciais do Instituto de Eletrônica e Telecomunicações (SPbPU).
A carga útil é um equipamento para monitoramento do nível de radiação eletromagnética na superfície terrestre em diversas faixas de frequência.

  1. Geoscan-Edelweiss da empresa @Geoscan.
    Chassi: Geoscan 3U.
    A carga útil são um motor a gás OKB Fakel e um receptor GNSS da empresa Elvis.

11, 12. MCA Skoltech B1, MCA Skoltech B2. Laboratório de Sistemas Espaciais Skoltech, SINP MSU. A principal tarefa dos satélites é desenvolver a tecnologia de comunicação inter-satélite de longa distância, que será posteriormente aplicada na detecção de flashes de raios gama com cálculo de triangulação da direção eles.
A carga útil compreende
• módulo de comunicação inter-satélite;
• detectores gama desenvolvidos pelo NIIYaF MGU;
• câmeras de espectro visível para sensoriamento remoto da Terra.

  1. CICLOPS SXC3-2110. BGTU Voenmekh D.F. Ustinov.
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    Sua carga útil compreende
  • estabilização e posicionamento de dispositivo óptico;
  • observação da superfície terrestre;
  • estudo das propriedades e eficiência do dispositivo de armazenamento de energia;
  • desenvolvimento de soluções técnicas para a criação de um rover lunar;
  • estudo da degradação das características dos materiais e parâmetros de dispositivos eletrônicos no espaço exterior.
  1. SXC3-214 MIET-AIS (MIET).
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    A carga útil é um equipamento AIS e um motor elétrico a plasma VERA.
  2. SXC3-219 ISOI (ISOI RAS), Medex, reportadamente da SAU
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    A carga útil é uma câmera hiperespectral de sensoriamento remoto.
  3. Monitor-1 (NIIYaF MSU).
    Chassi: OrbiCraft-Pro SXC3.
    A carga útil é um detector de radiação combinado (KODIZ).
O foguete Soyuz 2.1b tem 46,30 m de comprimento, pesa cerca de 316 toneladas no momento do disparo, desenvolvendo aproximadamente 420.000 kgf de empuxo na decolagem.

Depois de fechar as torres de serviço 11T11P1 em torno do foguete na plataforma, especialistas da indústria espacial da Rússia começaram a trabalhar no programa do primeiro dia de lançamento. “Dentro de três dias, os especialistas farão as verificações finais dos sistemas do complexo de lançamento e do veículo lançador”, disse a mídia oficial. Na véspera, em 4 de agosto, técnicos da Roskosmos concluíram a montagem geral do lançador Soyuz-2.1b, com o chamado “pacote” do primeiro e segundo estágios sendo unidos ao bloco do terceiro estágio e a seção de cabeça, na qual estão o estágio superior Fregat e as espaçonaves foram integrados sob a carenagem.

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