A novela do ‘estágio da SpaceX que iria cair na Lua’

… ou como bajuladores e detratores de Elon Musk espernearam pelo motivo errado

Em 14 de abril de 1970, o estágio superior da Apollo 13 Saturn IVB impactou a lua ao norte de Mare Cognitum, a -2,55° de latitude, -27,88° de longitude leste.
A cratera de impacto, que tem aproximadamente 30 metros de diâmetro, é claramente visível.

Nas últimas semanas houve uma celeuma entre os apoiadores de Elon Musk e de sua SpaceX e os detratores do ‘bilionário excêntrico’. Supunha-se que o segundo estágio do foguete Falcon 9 v1.1 B1013 que em 2015 lançara a espaçonave de perquisa de clima espacial DSCOVR em órbita lagrangiana L1 iria por fim colidir com a Lua, gerando um comunicado da Agência Espacial Europeia sobre o fato. De imediato, o exército de entusiastas da SpaceX – um grupo caótico que inclui jovens imberbes que acreditam que a exploração espacial começou com a empresa – os fanboys, jornalistas interessados em ‘likes’ e ‘retuítes’ e outros, com motivos ainda menos nobres, como bajularem o bilionário para conseguir-lhe entrevistas e publicarem livros de exaltação – entrou em guerra com outra tribo igualmente insana – leitores, jornalistas etc, que odeiam tudo o que Musk faz, independente de sua utilidade tecnólogica ou comercial.

Temos exemplares de ambas as faunas descritas acima tanto nos EUA como no resto do mundo, e infelizmente também no Brasil. É um tipo que se caracteriza por fazer muito barulho, e frequentemente sobrepuja vozes mais sensatas que se propõem a analisar a exploração espacial sob ponto de vista técnico e contextualizando cada fato. Tais vozes sensatas rejeitam tanto o ódio visceral a qualquer coisa relativa à SpaceX – mas também execram a tosca sabujice dos muskófilos.

Mais tarde, ficou estabelecido que o objeto em questão era um estágio descartado de um foguete chinês Longa Marcha 3C que havia lançado, anos atrás, uma sonda espacial.

Primeiro acusado: segundo estágio do Falcon 9 v.1.1

Uma justa (e antiga) preocupação da Agência Espacial Européia, que em vista do episódio manifestou-se de modo a avisar dos perigos potenciais de impactos de objetos não originalmente dirigidos ao satélite natural, pondo em algum grau de risco possíveis colônias de pessoas lá. Mas o assunto saiu da órbita-alvo original para apogeus e perigeus mais baixos – que giraram entre a sabujice, a xenofobia e a pura desonestidade intelectual.

O real culpado – o terceiro estágio do CZ-3C

Com o desenrolar da trama, ficou aparentemente claro que o causador da “tragédia ambiental lunar” seria o terceiro estágio do foguete Longa Marcha CZ-3C/G2 nº Y12, que lançou a espaçonave-protótipo Chang’e 5 T1 (CE 5 T1) em voo teste para Lua em 2014, quando fez a China se tornar a terceira nação a fazer um sobrevoo lunar com retorno à Terra: a cápsula da nave, uma miniatura da Shenzhou tripulada, circundou nosso satélite natural e voltou para pousar de paraquedas. As bateriais da ‘patota’ composta por fanboys , ‘divulgadores científicos’ e ‘jornalistas especializados’ (muitos deles especializados em ganhar dinheiro com a atenção dos incautos que acham que a Astronáutica começou quando Musk deixou a PayPal para entrar no negócio de foguetes) voltaram-se para a ditadura chinesa, cujos insensíveis exploradores de trabalho escravo e hospedeiros de plantas de big-techs ocidentais obviamente não se importam em ferir a face da Lua com um estágio descartado de uma de suas sondas espaciais.

A origem da celeuma

Um dos atores da polêmica sobre a identidade do objeto foi o engenheiro astrodinâmico Michael Thompson, da Advanced Space em Westminster, Colorado, EUA, cujas análises indicavam inicialmente como sendo o Falcon 9. Thompson baseou-se no trabalho de Bill Gray, do Project Pluto, agremiação de observadores que coleta dados de objetos próximos à Terra. Foi Gray quem descobriu o pretenso curso do estágio da SpaceX. O Project Pluto publica um subconjunto de observações brutas feitas por usuários de todo o mundo. Usando essas observações, Thompson realizou seu próprio processo de determinação de órbita, além dos processos executados por Gray.

O suposto ‘incidente lunar’ da SpaceX foi anunciado como sendo “a primeira vez que um item de detritos feito pelo homem atinge involuntariamente nosso satélite natural”, segundo a agência espacial européia. (“Itens de detritos” não incluem tentativas fracassadas de pousar na Lua, como as várias espaçonaves Luna soviéticas dos anos 60 e 70, a nave indiana Vikram/ Chandrayaan-2 e a israelense Beresheet).

“O próximo impacto lunar do Falcon 9 ilustra bem a necessidade de um regime regulatório abrangente no espaço, não apenas para as órbitas economicamente cruciais ao redor da Terra, mas também para a Lua ”, disse Holger Krag, chefe do Programa de Segurança Espacial da ESA. “Para viajantes espaciais internacionais, não existem diretrizes claras no momento para regular o descarte no final da vida útil de espaçonaves ou estágios superiores enviados para pontos de Lagrange”, continuou a entidade. “Potencialmente colidir com a Lua ou retornar e queimar na atmosfera da Terra têm sido até agora as opções padrão mais diretas”.

(Objetos feitos pelo homem já foram intencionalmente largados para cair na Lua antes. A prática era comum durante o programa Apollo, com estágios superiores de foguetes sendo jogados no solo ​​para induzir abalos sísmicos lunares para sismógrafos de superfície, como veremos mais abaixo.)

Os astrônomos amadores que haviam anunciado o evento do “estágio do Falcon 9 impactando a Lua” descobriram, porém, que o objeto não era o foguete americano, e sim um chinês.

Neste fim-de-semana, o Project Pluto fez uma declaração em seu site, explicando a situação:

“Identificação corrigida de objeto prestes a atingir a Lua. Versão curta: em 2015, identifiquei (erroneamente) esse objeto como 2015-007B, o segundo estágio da espaçonave DSCOVR. Agora temos boas evidências de que é realmente o 2014-065B, o último estágio da missão lunar Chang’e 5-T1. ( […] atingirá a Lua a poucos quilômetros do local previsto em 4 de março de 2022 às 12:25 UTC , dentro de alguns segundos do horário previsto.)

A história completa – Esta manhã (12 de fevereiro de 2022), recebi um e-mail de Jon Giorgini no Jet Propulsion Laboratory (JPL) , perguntando sobre minha declaração de que ” o DSCOVR (e o estágio de foguete com ele) passou perto da Lua em 13 de fevereiro de 2015 , dois dias após o lançamento. Jon apontou que o sistema Horizons do JPL mostrou que a trajetória da espaçonave DSCOVR não era particularmente próxima da Lua. Seria um pouco estranho se o segundo estágio passasse direto pela Lua, enquanto a DSCOVR estivesse em outra parte do céu. Sempre há alguma separação, mas esta era suspeitosamente grande. Instigado pelo e-mail de Jon, eu vasculhei meus arquivos de e-mail para descobrir por que eu havia originalmente identificado o objeto como o estágio DSCOVR em primeiro lugar, sete anos atrás. Eu fiz essa escavação com total confiança de que provaria que o objeto era, de fato, o segundo estágio da DSCOVR.

Como o objeto foi originalmente (mal) identificado como o segundo estágio da DSCOVR – Em 14 de março de 2015, cerca de um mês após o lançamento da DSCOVR, o Catalina Sky Survey encontrou um possível asteroide próximo à Terra. Como é de praxe, eles postaram suas observações no NEOCP (Near-Earth Object Confirmation Page). É lá que os astrônomos postam dados sobre objetos que descobriram que podem ser asteroides ou cometas próximos da Terra; a ideia é que outros possam tentar observá-los também e dizer “Eu também encontrei no seguinte local” ou “Hmmm, não consigo encontrar esse”. Os descobridores, pensando que tinham uma rocha, deram-lhe o nome temporário WE0913A.

Satélite DSCOVR

Esses dados estão disponíveis publicamente e, pouco depois, um astrônomo no Brasil observou em um grupo de notícias que o objeto estava orbitando a Terra, não o Sol, sugerindo que poderia ser um objeto feito pelo homem. Respondi para confirmar isso e escrevi que achava que era a DSCOVR ou algum aparelho associado a ele, mas que estava tendo problemas para encontrar dados sobre a trajetória da DSCOVR. Outros dados confirmaram que sim, o WE0913A passou pela Lua dois dias após o lançamento da DSCOVR, e eu e outros aceitamos a identificação com o segundo estágio como correta. O objeto tinha o brilho que esperávamos, e apareceu no tempo esperado e se movendo em uma órbita razoável. Essencialmente, eu tinha boas evidências circunstanciais para a identificação, mas nada conclusivo. Isso não era nada incomum. Identificações de lixo espacial voando alto geralmente exigem um pouco de trabalho de detetive e, às vezes, nunca descobrimos a identificação de um pouco de lixo espacial; existem alguns UOOs (objetos orbitais não identificados) por aí.

Por que agora tenho certeza de que é realmente o ‘booster’ da Chang’e 5-T1 – Em retrospectiva, eu deveria ter notado algumas coisas estranhas sobre a órbita de WE0913A. Assumindo nenhuma manobra, estaria em uma órbita um tanto estranha ao redor da Terra antes do sobrevoo lunar. Em seu ponto mais alto, estaria perto da órbita da Lua; no seu ponto mais baixo (perigeu), cerca de um terço dessa distância. Eu esperava que o perigeu estivesse perto da superfície da Terra. [mas] O perigeu parecia bastante alto.

Sonda espacial chinesa CE-5 T1

No entanto, um estágio do foguete geralmente faz coisas estranhas em seus primeiros dias no espaço, com o combustível restante vazando e empurrando-o ao redor . Isso causa mudanças na órbita, de modo que, quando você tenta descobrir de onde veio o lixo, obtém uma resposta errada (ou pelo menos alterada). Essas coisas acontecem rotineiramente, mas neste caso, seria necessário um tipo incomum (embora possível) de vazamento, ocorrendo vários dias após o sobrevoo lunar. E teria que ser uma quantidade bastante substancial de vazamento. Além disso, eu não tinha uma trajetória para a DSCOVR na época, e o sobrevoo lunar parecia bastante plausível ([cert]as naves espaciais costumam usar um sobrevoo lunar para ajustar suas órbitas).

Assim as coisas permaneceram, até que eu recebi o e-mail de Jon. Isso me levou a procurar missões espaciais anteriores que pudessem explicar o objeto. Não poderia ter surgido tanto tempo antes, porque este é um objeto grande e brilhante; alguém o teria visto. Portanto, deveria ter sido lançado pouco antes de março de 2015, em uma órbita alta passando pela Lua. Poucos objetos vão tão alto; a maioria fica relativamente perto da Terra.

O lançamento ‘candidato’ foi a missão Chang’e 5-T1, lançada às 18:00 UTC em 23 de outubro de 2014. Seu estágio propulsor nunca foi (pensávamos) visto. Não está claro quando o estágio da Chang’e 5-T1 teria passado pela Lua, mas quatro dias após o lançamento seria uma estimativa razoável. Executando a órbita do WE0913A mais para trás, consegui um sobrevoo lunar em 28 de outubro de 2014:

Elementos orbitais: WE0913A = objeto DSCOVR = 2015-007B = NORAD 40391
Perilune 2014 Out 27.9200390 +/- 0.000152 TT = 22:04:51.37 (JD 2456958.4200390)
A1.1: 4.24e-59 +/- 4.51e-1: -11 +/- 3,01e-11
A3: -6,33e-10 +/- 4,72e-11 AU/dia^2 [1/r^2]
Epoch 2014 Out 28,0 TT = JDT 2456958,5 Find_Orb
q 6826,0085634 +/- 99,4 (J2000 eclíptica)
H 27,4 G 0,15 Peri. 110,9433956 +/- 0,14
Nó 7,0878255 +/- 0,13
e 2,054713052 +/- 0,0151 Incl. 119,1718318 +/- 0,13
71 de 85 observações 2015 14 de março a 14 de julho; média residual 0,553

… o que é um sobrevôo lunar bem próximo na data certa. Mas ainda mais impressionante, a órbita antes do sobrevoo o coloca na órbita de transferência lunar “usual”. Se assumirmos que o perigeu estava logo acima da atmosfera (como geralmente é), então isso acontece cerca de meia hora após o tempo de lançamento, e o caminho terrestre [ground track] começa perto do local de lançamento na China e prossegue quase para o leste. Em suma, parece exatamente como a missão lunar chinesa deveria ser em todos os detalhes.

Elementos orbitais: WE0913A = objeto DSCOVR = 2015-007B = NORAD 40391
Perigee 2014 Out 23.7643109 +/- 0.00152 TT; Restrição: q=6500k
A1: 3,78e-9 +/- 2,24e-11 A2: 3,65e-10 +/- 2e-11 A3: -6,45e-10 +/- 6,51e-11 AU/dia^2 [ 1/r^2]
Epoch 2014 Out 24.0 TT = JDT 2456954.5 Find_Orb
M 8.3102144356 +/- 0.053 (J2000 equator)
n 35.2592288110 +/- 0.0058 Peri. 141,9756875 +/- 0,14
a198802,40474 +/- 21,8 Nó 301,7804670 +/- 0,15
e 0,967304355 +/- 4,7e-6 Incl. 27,0705663 +/- 0,16
P 10,21d H 27,4 G 0,15 U 9,3
q 6499,9727089 +/- 0,115 Q 391104,83678 +/- 44,1
71 de 85 observações 2015 14 de março a 14 de julho; média residual 0,848

Para adicionar à nova evidência, [o astrônomo e analista espacial] Jonathan McDowell enviou elementos orbitais para a entidade de rádio amador LuxSpace que lançou um satélite numa ‘rideshare’ – “carona compartilhada” – com o mesmo foguete da DSCOVR, com uma correspondência muito próxima. Em certo sentido, isso continua sendo uma evidência “circunstancial”. Mas eu consideraria como bastante convincente. Portanto, estou convencido de que o objeto prestes a atingir a Lua em 4 de março de 2022 às 12:25 UTC é na verdade o estágio do foguete CZ-3C da Chang’e 5-T1.”

“Efemérides para o segundo estágio do F9 ( 40391 = 2015-007B )
WE0913A = DSCOVR objeto = 2015-007B = NORAD 40391
Data (UTC) Hora ascenção reta (J2000) decl. elong. Dist(km) “/s PA Mag
2022 02 13 12:00:00 21 32 21.4 -27 39 49 14.7 480850 0.1663 68.3 27.3
2022 02 13 13:00:00 21 33 03.1 -27 36 09 14.6 483126 0.1647 68.2 27.3
2022 02 13 14:00:00 21 33 44.3 -27 32 30 14.5 485386 0.1632 68.1 27.4
2022 02 13 15:00:00 21 34 25.1 -27 28 53 14.5 487628 0.1617 68.0 27.4
2022 02 13 16:00:00 21 35 05.5 -27 25 17 14.4 489853 0.1602 68.0 27.5
2022 02 13 17:00:00 21 35 45.5 -27 21 42 14.3 492060 0.1588 67.9 27.5
2022 02 13 18:00:00 21 36 25.1 -27 18 08 14.3 494252 0.1574 67.8 27.6
2022 02 13 19:00:00 21 37 04.2 -27 14 35 14.2 496426 0.1560 67.7 27.6
2022 02 13 20:00:00 21 37 43.0 -27 11 03 14.1 498584 0.1547 67.6 27.7
2022 02 13 21:00:00 21 38 21.5 -27 07 32 14.1 500726 0.1533 67.5 27.7
2022 02 13 22:00:00 21 38 59.5 -27 04 03 14.0 502851 0.1520 67.5 27.8
2022 02 13 23:00:00 21 39 37.2 -27 00 34 14.0 504960 0.1508 67.4 27.8
2022 02 14 00:00:00 21 40 14.5 -26 57 07 13.9 507054 0.1495 67.3 27.8
2022 02 14 01:00:00 21 40 51.5 -26 53 40 13.8 509132 0.1483 67.2 27.9
2022 02 14 02:00:00 21 41 28.2 -26 50 15 13.8 511194 0.1471 67.1 27.9
2022 02 14 03:00:00 21 42 04.5 -26 46 50 13.7 513240 0.1459 67.1 28.0
2022 02 14 04:00:00 21 42 40.4 -26 43 27 13.7 515270 0.1448 67.0 28.0
2022 02 14 05:00:00 21 43 16.1 -26 40 04 13.6 517285 0.1436 66.9 28.1
2022 02 14 06:00:00 21 43 51.5 -26 36 43 13.6 519285 0.1425 66.8 28.1
2022 02 14 07:00:00 21 44 26.5 -26 33 22 13.5 521270 0.1414 66.8 28.1
WE0913A = DSCOVR objeto = 2015-007B = NORAD 40391

On-line Sat_eph compilado Jan 31 2022 11:57:42 UTC-5h”

Não-intencional?

Agora, em sendo o estágio chinês da Chang’e 5-T1 um aparelho que faz parte de uma missão lunar, fica difícil classificar o incidente como “não-intencional”, a não ser que a China confirme que o destino do estágio era cair de volta à Terra ou ser perturbado em órbita distante da Lua.

O ponto central da discussão

O que quase ninguém disse ao público leigo é que o ponto fulcral dessa polêmica é simplesmente fútil. Outros objetos feitos pelo Homem já impactaram na Lua, e vários deles muito maiores do que o barril vazio de 4,5 toneladas com um motor Merlin Vac inativo, que constitui um estágio do Falcon 9. O mesmo serve para um estágio chinês de tamanho e massa similar do CZ-3C. A justa preocupação da ESA com a proliferação de ‘lixo espacial’ ameaçando atividades científicas no espaço próximo à Lua foi obliterada pela guerra nas redes sociais protagonizada pelos sabujos de Musk de um lado e seus antipatizantes raivosos de outro. O foco não era aprender com este precedente que surgia, felizmente enquanto não há pessoas morando na superfície lunar para serem ameaçadas [*], e sim destilar ódio contra a SpaceX de um lado e do outro apenas aplaudir o bilionário em qualquer atitude, seja por um feito tecnológico louvável e admirável como a reutilização de primeiros estágios e coifas, seja por algum factóide fútil como lançar carros em órbita heliocêntrica.

[*] – mesmo assim, a possibilidade de um estágio de foguete de 10 x 3,5 metros, vazio, cair na Lua oferecendo real perigo a uma colônia humana é desprezível. Pelo menos nas próximas décadas, quando os assentamentos na superfície nem poderão ser realmente chamados de ‘colônias’, tal o seu diminuto tamanho.

Agora, com a identidade chinesa do aparelho praticamente aceita, entram em cena não só os muskófilos, mas também os sinófobos com eu ódio a tudo que venha da China (que, diga-se de passagem não ajuda muito em sua auto-imagem devido às características ditatoriais de seu governo). Como frequentemente essas duas facções têm integrantes em comum – com a participação de russófobos e de ‘haters’ de Jeff Bezos na trupe de fanboys de Musk- a gritaria nas mídias sociais passou a ser intensa, visto a diligência deles em defender seu ídolo.

Antecedentes

Como dissemos, a Lua já foi atingida em numerosas vezes por objetos terrestres artificiais – todos como parte de alguma missão dirigida ao satélite natural, portanto se constituindo em eventos previsíveis. Novamente destaque-se a justificada preocupação dos europeus com impactos não relacionados a missões lunares.

Cratera formada pelo impacto do Saturn IVB da Apollo 14. 
O booster foi intencionalmente impactado na superfície lunar em 4 de fevereiro de 1971 para servir como fonte de energia para sondar a estrutura interior da Lua usando sismômetros colocados na superfície pelos astronautas da Apollo

Módulos lunares abandonados – Após a missão histórica da Apollo 11, o estágio de ascensão (‘ascent stage’) do módulo lunar (“LM”) Eagle foi abandonado em uma órbita cerca de 125 km acima do equador lunar. A NASA assumiu que essa órbita era instável e que algum tempo depois, o aparelho deveria ter colidido com a superfície lunar. Mas não se sabia exatamente o que acontecera com o Eagle depois que foi abandonado. Os estágios de ascensão dos módulos lunares também foram jogados na Lua para coleta de dados de sismógrafo. Por outro lado, os estágios dos LM das Apollos 12, 14, 15, 16 e 17 foram todos deliberadamente colididos com a Lua para ajudar a calibrar os sismômetros que os astronautas deixaram na superfície. Exceção feita aos astronautas da Apollo 13, que usaram seu módulo de ascensão como ” bote salva-vidas” para voltar à Terra, onde queimou na atmosfera.
James Meador, pesquisador independente do Instituto de Tecnologia da Califórnia, usando uma ferramenta criada pela NASA que pode ser usada para mapear trajetórias de naves em torno de corpos celestes quando seu campo gravitacional é conhecido, encontrou evidências que sugerem que o estágio de ascensão da Apollo 11 ainda poderia estar ainda orbitando a Lua. Ele escreveu um artigo descrevendo sua pesquisa, argumentando que poderia apontar os observadores para uma cratera de impacto do Eagle.

A estação sísmica no local da Apollo 12. O sismômetro monitorava o nível de movimento do solo para detectar ondas sísmicas que chegassem. O instrumento (esquerda) é protegido por uma folha de metal contra as variações de temperatura na superfície lunar.

Estágios de foguetes Saturno V Os terceiros estágios dos foguetes Saturn V, os S-IVB, também encontraram seu destino final na Lua. Os locais de impacto dos S-IVBs das missões Apollo 13, 14, 15, 16 e 17 foram estimados a partir de dados de rastreamento antigos. A sonda LRO, que circula a Lua desde 2009, já encontrou os pontos onde os estágios usados nas missões Apollo haviam caído.

Se houvesse motivo (não há) para culpar alguém pelo impacto de um segundo estágio de Falcon 9 na Lua, a ‘culpa’ recairia e seria dividida entre os contratantes do lançamento do satélite DSCOVR – a NOAA, a NASA e a Força Aérea Americana. Assim como não há motivos para culpar a ditadura chinesa. Mais um veículo espacial, seja qual for, caindo na Lua, não fará a menor diferença hoje em dia.

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