Quatro cosmonautas russos selecionados para para voos na Crew Dragon

Passada a “crise” do ASAT, tudo como dantes nos quartéis de NASA e Roskosmos

Crew Dragon

O Tsentr Podogotvki Kosmonavtov, centro russo de treinamento de cosmonautas (TsPK) selecionou quatro candidatos para se preparar para os voos na espaçonave americana Crew Dragon, disse o chefe do Centro, Maxim Kharlamov. O anúncio ocorre após a celeuma, magnificada pela mídia americana e alguns jornalistas russófobos, do teste anti-satélite (ASAT) do início desta semana, quando um míssil A-235 do sistema Nudol destruiu um satélite soviético desativado, numa demonstração de força sinalizada à Ucrânia e aos próprios EUA. O efeito colateral desta iniciativa, desnecessariamente arriscada por parte das forças militares da Rússia, foi a necessidade de que os astronautas da ISS se refugiassem em suas cápsulas em prevenção à possibilidade de choque de detritos – o que acabou por não acontecer.

“Estas são quatro – o membro da tripulação principal da USCV-5 e seu backup, e os principal e reserva na USCV-6”, disse Kharlamov. Segundo ele, em um futuro próximo, os candidatos deverão ser submetidos à aprovação da comissão estatal. No início da quarta-feira, o diretor executivo da Roskosmos para programas tripulados, Sergei Krikalev, disse que a estatal e a NASA chegaram a um acordo de princípios sobre a retomada dos voos “cruzados”, cujo texto deve ser aprovado pelo governo russo . “Há um acordo de princípios. Não há problemas tanto técnicos quanto documentais. Por se tratar de um esquema de permuta, é um acordo em nível de governo: os documentos estão sendo preparados, as regras estão sendo especificadas, e o processo normal de trabalho está em andamento “, disse Krikalev.

Soyuz MS

Em 6 de novembro, o vice-chefe do Centro de Ciência e Desenvolvimento, Vladimir Dubinin, disse que uma lista preliminar de cosmonautas russos que serão treinados na nave Crew Dragon como parte de futuros voos “cruzados” para a ISS foi elaborada. Em 6 de outubro, o chefe do programa da NASA na ISS, Joel Montalbano, anunciou que os Estados Unidos estavam preparando um acordo com a Roskosmos em voos “cruzados”; o cosmonauta russo, disse ele, poderia voar em uma espaçonave americana no outono de 2022. Em 29 de outubro, a chefe do programa tripulado da NASA, Katie Luders, anunciou que a Roskosmos e a agência americana estavam considerando o treinamento conjunto para futuros voos “cruzados” para a ISS.

Soyuz e Crew Dragon na mesma escala

Em 19 de março, a Roskosmos disse que negociações estavam em andamento com a NASA para voos “cruzados”, mas nenhum acordo fora alcançado ainda. Em abril, Krikalev disse que a estatal era a favor da retomada dos voos “cruzados” em naves russas e americanas.

No relatório anual da Roskosmos para 2020, foi relatada a preparação do projeto de acordo de voos “cruzados”. Desde 2011, o transporte de tripulações à ISS foi realizado apenas por espaçonaves russas, mas antes disso havia um sistema cruzado, segundo o qual astronautas americanos recebiam assentos em naves russas e cosmonautas russos nas americanas. Em 2020, a NASA informou que estava negociando com a Roskosmos sobre o retorno do sistema cruzado.

O diretor da Roscosmos, Dmitry Rogozin, declarou durante uma coletiva de imprensa no Congresso Internacional de Astronáutica em Dubai em 25 de outubro passado, que russos teriam permissão para voar para a ISS na Crew Dragon, “pois a tecnologia já provara ser suficientemente segura e confiável”. “Em nossa opinião, a SpaceX já adquiriu experiência suficiente para poder colocar nossos cosmonautas na Crew Dragon”, disse Rogozin.

Comparações pertinentes

De fato, a Crew Dragon já acumulou um total de cinco voos, todos realizados dentro dos limites do envelope de segurança, mesmo que seja uma soma tímida em comparação com a Soyuz russa, usada sem falhas catastróficas desde 1971. A Soyuz, desde então já enfrentou várias ocasiões de operação “não-nominal”, como falhas de acoplamento, defeito em software antes da reentrada, alternância para modo balístico durante o retorno, falhas de acionamento dos motores de pouso suave e mesmo um furo por onde vazava o ar ambiente (num episódio não explicado). Em três ocasiões o distema de resgate de emergência SAS foi acionado, uma vez na plataforma durante explosão do foguete, outra em voo na fase de separação do primeiro e segundo estágios e a mais recente durante uma falha na separação do primeiro estágio – e em todas as ocasiões a tripulação retornou ilesa à Terra, e a nave não ficou proibida de voar por mais do que alguns meses.

Essa lista de falhas, ao invés de prenunciar uma fragilidade do sistema russo, na verdade demonstra a sua confiabilidade no item mais crucial – a segurança da tripulação em caso de emergência na vida real, e não apenas em simulações controladas. Mais de 150 naves Soyuz já foram lançadas – sem contar os voos de testes não relacionados sob o nome “Soyuz” e os lançamentos das naves-irmãs 7K-L1 “Zond”. Em nenhuma ocasião foi feito uso do paraquedas reserva – talvez este sendo o motivo para que o público leigo fosse enganado pela noção absurda de que a nave teria apenas um sistema de paraquedas.

Comparações não-pertinentes

Não é pertinente comparar as Soyuz com os space shuttle americanos, que em 135 voos tiveram dois acidentes catastróficos, não por falha de design mas por deficiências operacionais – porque as espaçonaves são de desenho e requerimentos diferentes. Quanto ao design, o shuttle era reconhecidamente uma nave no limite da segurança, porém os astronautas e a NASA eram conscientes das limitações da nave reutilizável e seus pontos fracos, que foram porém empurrados ao limite justamente pela atititude da agência espacial e da indústria dos EUA em forçar suas capacidades além do razoavelmente permissível.
Uma vez, a Challenger foi destruída devido a mau gerenciamento do cronograma de voo, obrigando uma decolagem em ambiente climático desfavoravel, sob protestos de engenheiros. Na segunda vez, o Columbia foi perdido devido a um mau gerenciamento de riscos inerentes à espuma gelada se desprendendo do isolamento do tanque externo durante a subida e atingindo o bordo de ataque da asa justamente num ponto vulnerável. Cada um desses acidentes obrigou os americanos a manterem suas naves em terra enquanto eram feitos os inquéritos para a determinação das causas e a posterior implementação dos programas de correção das falhas detectadas.
Isso não impediu que as naves voltassem a voar com segurança revisada e conseguindo um sucesso em todas as suas missões, que permitiram concluir o segmento americano da ISS, aos que se seguiu a retirada de serviço dos veículos restantes na frota (Atlantis, Discovery e Endeavour) após missões exitosas para a NASA. Sem os shutle, o segmento dos EUA seria deixado incompleto, o que comprometeria os compromissos com os parceiros europeus e japoneses.

Espera-se que a Crew Dragon a sua concorrente Starliner da Boeing possam apresentar histórico similar, se bem que o contrato para uso destas naves por parte da NASA não prevê uma lista de lançamentos que se equiparem em volume à das naves russas.

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Author: homemdoespacobrasil

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