China teria testado avião hipersônico para bombardeio nuclear

Espaçonave testou o esquema FOBS, criado na Guerra Fria

Concepção artística do HGV chinês

A China supostamente testou um veículo orbital que, se equipado com uma ogiva nuclear, poderia atacar os Estados Unidos pelo sul, evitando muitos dos radares de alerta do Exército americano. Há alguns meses houve indícios de que o Partido Comunista Chinês havia testado algo ‘sensível’. A Academia Chinesa de Tecnologia de Veículos de Lançamento, que supervisiona os lançamentos espaciais em nome do Partido, anunciou em 19 de julho que havia lançado seu 77º foguete de Longa Marcha. Em 24 de agosto, a academia anunciou que havia lançado o 79º foguete. O não mencionado 78º lançamento aparentemente colocou em uma órbita baixa um veículo planador hipersônico que “circulou o globo” antes de deslizar de volta à Terra e errar seu alvo por algumas dezenas de quilômetros.

Os jornalistas Demetri Sevastopulo e Kathrin Hille, do Financial Times relataram o teste de agosto do sistema de bombardeio orbital fracionário potencial, fractional orbital bombardment system ou FOBS. Como o nome indica, um FOBS é lançado como um míssil intercontinental tradicional e então entra em uma órbita breve, mas estável, antes de sair dessa órbita após apenas uma fração de uma viagem ao redor da Terra. Os repórteres afirmaram que o teste “pegou a inteligência dos EUA de surpresa”. Na verdade, o secretário da Força Aérea americano, Frank Kendall, alertou em setembro que a China poderia desenvolver um FOBS. “Há potencial para que armas sejam lançadas ao espaço, nesse velho conceito chamado sistema de bombardeio orbital fracionário, um sistema que basicamente entra em órbita e depois sai da órbita para um alvo, ”Kendall disse.

O conceito FOBS usa um trecho do voo em um segmento de uma órbita para alcançar o alvo, seja de Norte a Sul ou ao contrário

Enquanto um ICBM tradicional escapa brevemente da atmosfera num arco parabólico em direção ao seu alvo – sobre o Pólo Norte, no caso de um ICBM soviético ou chinês indo para os Estados Unidos – um FOBS permanece em órbita apenas o tempo suficiente para que, dependendo de sua trajetória, ele pode descer em direção a um alvo de qualquer uma de várias direções. Como muitos dos radares estratégicos mais poderosos são fixos e, apontam em apenas uma direção, um FOBS tem grande potencial para um ataque atômico furtivo. Quanto menos alertas o país-alvo tiver de um ataque iminente, menos provável será que suas defesas antimísseis balísticos funcionem. Portanto, um FOBS é uma espécie de resposta estratégica para os sistemas ABM. Hans Kristensen, um especialista em física nuclear da Federação de Cientistas Americanos em Washington, DC, disse sobre os chineses: “Eles estão tentando de tudo.”

A China já em um veículo hipersônico planador (hypersonic glide vehicle, HGV), o DF-ZF, anteriormente conhecido como WU-14, em desenvolvimento para uso pelas Forças de Foguetes do Exército de Libertação do Povo (PLARF). Embora pouco se saiba sobre o aparelho, alega-se que ele pode voar a velocidades entre Mach 5 e Mach 10 e é capaz de “manobras extremas” para escapar das defesas. A PLARF conduziu vários testes desde seu primeiro em 2014, incluindo testes bem-sucedidos do DF-17, um míssil balístico de médio alcance projetado especificamente para operar com o HGV. Outros mísseis deverão ser capazes de operar com planador, incluindo os DF-11 e DF-15 de curto alcance e o DF-21 de médio alcance. O veículo planador DF-ZF já deve ter entrado em serviço em 2020 junto com o DF-17.

Efetividade real

Alguns analistas, no entanto, argumentam que hoje em dia os Estados Unidos não dependem mais da “linha de alerta antecipado distante”. O FOBS requer o uso de ogivas menos potentes em comparação com mísseis balísticos e é menos preciso do que mísseis balísticos. Além disso, o conceito foi banido pelo Acordo SALT II entre os EUA e a URSS, o que torna este teste, na opinião de alguns, um ato provocativo por parte da China. Os EUA montaram seus sistemas ABM principalmente no Alasca e na Europa Oriental para interceptar foguetes iranianos e norte-coreanos. Mas os mesmos sistemas, redistribuídos em locais diferentes, poderiam reduzir ligeiramente a eficácia dos arsenais nucleares da Rússia e da China como dissuasores.

E isso motivou estes últimos a desenvolver novos sistemas de ataque nuclear. Incluindo, no caso da China, esse planador hipersônico que poderia formar a base de um FOBS. Uma ameaça para a qual os Estados Unidos carecem de ampla capacidade de alerta antecipado. É uma questão em aberto como o governo de Joe Biden poderia responder a um FOBS chinês. Uma resposta racional seria encerrar o desenvolvimento do ABM e negociar um novo tratado que proibisse o bombardeiro orbital.

Mas o sistema de defesa antimísseis dos Estados Unidos é enorme e, para empreiteiros e políticos, altamente lucrativo. Simplesmente encolhê-lo representaria um ato profundo, até mesmo sem precedentes, de coragem política – supondo que Biden pudesse até mesmo interromper os desenvolvimentos de ABM por conta própria. Essa não é uma suposição segura; tampouco é seguro presumir que Biden negociará ou poderá negociar um novo tratado tratando do FOBS – e conseguir que o Senado dos Estados Unidos, fortemente dividido, o ratifique.

Na verdade, graças a um profundo ressentimento em relação a qualquer controle de armas por parte do ex-presidente Donald Trump e seus aliados republicanos no Congresso, os Estados Unidos nos últimos anos têm cancelado tratados em vez de escrevê-los. O que poderia significar que a única resposta viável dos Estados Unidos a um FOBS chinês seria detê-lo com mais e melhores armas nucleares. “Eles terão que recorrer à dissuasão”, disse Kristensen sobre Washington.

História do FOBS

O FOBS tem uma longa história. A União Soviética, a partir de 1969, distribuiu um pequeno número desses mísseis orbitais. Concebido no auge da Guerra Fria, o esforço mostrou até que ponto os soviéticos estavam preparados para ir a fim de obter uma vantagem decisiva sobre o Ocidente em um confronto nuclear. Nos anos 60, como agora, a perspectiva de sistemas de defesa americanos derrubando mísseis nucleares normais motivou o desenvolvimento do FOBS, que foi desestabilizador na época e ainda é hoje. No entanto, também é uma resposta racional ao próprio desenvolvimento nos Estados Unidos de sistemas de defesa antimísseis cada vez mais sofisticados.

O desenvolvimento do foguete 8K713 GR-1 (Globalnaya Raketa -1 ou Missil Global 1) foi iniciado em 1962 pelo OKB-1, liderado por Sergei Korolyov. O esforço de desenvolvimento do GR-1 cessou em 1964, sem um único teste de lançamento. Apesar disso, como parte de um plano de engano estratégico, os soviéticos exibiram este míssil como um sistema de arma operacional durante seu desfile militar anual na Praça Vermelha. Os analistas ocidentais ficaram convencidos de que ele estava em uso e recebeu a designação na OTAN de “SS-10 Scrag”.

GR-1 “Scrag”

O que os soviéticos realizaram operacionalmente foi um sistema FOBS totalmente diferente, o R-36-O ou 8K69 desenvolvido pelo SKB-586, liderado por Mikhail Yangel. Com sede então e desde então em Dnepropetrovsk, na Ucrânia, o escritório de design trabalhava com uma fábrica na Yuzhniy Mashinostoryenniy Zavod.

O desenvolvimento de um derivado FOBS do ICBM pesado R-36 foi autorizado em abril de 1962, levando à aprovação e atribuição da designação “8K69” em dezembro e, subsequentemente, a fabricação de protótipos iniciais no terceiro trimestre de 1964.

R-36 “SS-9 Scarp”

Em janeiro de 1965, uma autoridade determinou que o míssil fosse redesenhado para um sistema de lançamento “encapsulado”. Até então, os ICBMs soviéticos eram empilhados no silo e então abastecidos para operação com a mistura de propelente líquido hiergólico. O novo esquema de “embalagem encapsulada” previa os ICBMs serem montados e, em seguida, instalados em um contêiner de lançamento hermético, que aí sim era inserido no silo para a espera de longa duração. Antes de ser selado, o míssil seria abastecido com uma mistura de propelente ‘inibida’, o que permitiria que ele ficasse em um silo por sete anos e meio, pronto para lançamento com cinco minutos de antecedência, em vez de precisar ser extraído, descarregado e revisado.

Variantes do R-36: “OR-36 ou R-36-O”,e “R-36Orb”

Na introdução deste esquema, pretendia-se aumentar a prontidão operacional das Forças de Mísseis Estratégicos da Federação Russa (RVSN, Raketnyye voyska strategicheskogo naznacheniya Rossiyskoy Federatsii), que na época estava amplamente equipada com mísseis de combustível líquido. Os ICBMs podiam ficar em silos prontos para lançamento imediato, minutos após a chegada de uma ordem de lançamento ao Centro de Controle.

Os testes do R-36-0 / 8K69 começaram em dezembro de 1965, a partir dos complexos de silos de Baikonur LC-160 e LC-162. O R-36-O / 8K69 FOBS foi aceito em serviço operacional em novembro de 1968 e permaneceu operacional até janeiro de 1983.

O R-36-O foi designado nos EUA / OTAN como SS-9 Mod 3 “Scarp” ou “SS-9 FOBS”, e às vezes era rotulado como R-36orb. A principal diferença em relação ao R-36 básico foi o estágio superior redesenhado, com um motor orbital de propelente líquido, projetado para desacelerar o veículo de reentrada. O perfil de voo compreendia quatro fases – de impulso, fase orbital, de frenagem e, finalmente, a fase de reentrada. O estágio orbital de 1.700 kg foi designado como 8F021 OGCh, que compreendia uma fuselagem, uma seção de instrumento com sistema de orientação inercial, a seção de motor e uma seção de ogiva nuclear 8F673 com cerca de 5 megatons.

Cabeça nuclear do R-36

O 8F021 iria, ao se aproximar do ponto de entrada da manobra de saída de órbita, dar partida no motor com combustível líquido N2O4 / UDMH usando um gerador de gás de propelente sólido. Os gases de escape da turbina seriam usados ​​para controle de atitude do veículo, usando um arranjo de propulsor “4 + 4”. Este projeto de motor mais tarde formou a base do motor orbital de terceiro estágio do foguete Tsiklon 3, o “S5.23 / RD-861”, com empuxo de 78,710 kN. O CEP (circular error probable, provável erro circular, ou seja a área de precisão) citado para o seu veículo de reentrada era de 1,1 km.

Um jogo de gato e rato

No início da corrida armamentista, sucessivas administrações dos Estados Unidos trabalharam em sistemas de mísseis lançados de superfície que poderiam derrubar ICBMs. O presidente Richard Nixon em 1969 aprovou a configuração do sistema Safeguard ABM. A Safeguard incluía dois tipos de interceptores de mísseis nucleares, em sucessão, por satélites com sensores infravermelhos, em seguida, radares estratégicos voltados para o norte e, finalmente, um par de radares de menor alcance.

As autoridades americanas estavam cientes de que as defesas antimísseis corriam o risco de aumentar a corrida armamentista. A dissuasão estratégica funciona quando ambos os combatentes em uma guerra nuclear potencial entendem que nenhum dos lados pode vencer – portanto, lutar não é uma boa opção. A realização de defesas antimísseis sinaliza que um lado acredita que pode vencer e, portanto, pode arriscar um primeiro ataque. Não ha razão para que então o outro lado não desenvolveria mísseis ofensivos ainda melhores.

Foguete 8K69

“… naquela época, se montássemos um sistema ABM pesado em todos os Estados Unidos, os soviéticos ficariam claramente motivados a aumentar sua capacidade ofensiva para anular nossa vantagem defensiva”, disse Robert McNamara, secretário de defesa dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson. “É fútil para cada um de nós gastar US $ 4 bilhões, US $ 40 bilhões ou US $ 400 bilhões – e no final de todos os gastos, no final de todo o esforço, estar relativamente no mesmo ponto de equilíbrio na escala de segurança que estamos agora. ”

Em 1975, o Congresso dos Estados Unidos votou para desmantelar o que restava da Safeguard. Oito anos depois, após a assinatura do acordo Strategic Arms Limitation Talks 2 (SALT-2), Moscou aposentou seus FOBS.

Como seus antecessores fizeram, o presidente George W. Bush ignorou o aviso de McNamara quando, em 2002, retirou unilateralmente os Estados Unidos do Tratado de Mísseis Antibalísticos, que havia limitado o escopo e a escala das defesas antimísseis e estabeleceu a base para limites adicionais em armas nucleares. Desde a decisão de Bush, o Pentágono gastou centenas de bilhões de dólares desenvolvendo sistemas antimísseis cada vez mais sofisticados, alguns dos quais, em teoria, poderiam interceptar ICBMs, embora apenas em números muito pequenos. A utilidade do FOBS diminuiu muito rapidamente, à medida que os EUA lançavam satélites de alerta antecipado capazes de rastrear assinaturas de lançamento de mísseis, e a rede BMEWS de cobertura expandida, com o novo radar de painel de fase (phased array) AN / FPS-115 PAVE PAWS e radares de rastreamento de precisão.

Um espaçoplano similar ao americano X-37 já foi testado pelos chineses em órbita

Embora o FOBS tivesse alcance ilimitado e pudesse atacar alvos em qualquer lugar do globo, a perda do elemento surpresa devido aos sistemas de alerta antecipado aprimorados o relegou à posição de um caro míssil de ogiva única com rendimento limitado de 5 Megatos com 1.100 metros de CEP, e tempo de voo mais longo, em comparação com as variantes de ICBMs com MRV (veículos de reentrada multiplos) / MIRV ( multiple independently targetable reentry vehicle, veículos de reentrada dirigidos independentemente) posteriores do R-36. Dezoito silos em Baikonur foram carregados com essas armas até 1983, quando foram desativados nos termos do tratado SALT-2.

O programa FOBS soviético foi planejado para explorar a cobertura geográfica limitada da primeira geração do sistema de alerta antecipado BMEWS dos EUA, que fornecia cobertura apenas no setor norte.

O advento do FOBS e dos mísseis lançados de submarino (SLBMs) soviéticos mais capazes viu a realização dos radares BMEW de matriz de fases AN / FPS-115 PAVE PAWS em Beale AFB na Califórnia e Otis AFB em Massachussetts, expandindo a cobertura angular do Estados Unidos Continental (CONUS) e tornando o FOBS inutilizável em seu papel original.

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