A guerra do Artemis: O que diz a Blue Origin

Uma análise isenta da peleja entre bilionários

“Seguro, baixo risco, rápido” – é o mote do ‘pool’ de gigantes aeroespaciais americanas lideradas pela Blue Origin de Jeff Bezos na concorrência pelo contrato de construção do complexo de alunissagem lunar do programa Artemis da NASA. A agência espacial outorgou à SpaceX, do outro bilionário excêntrico, Elon Musk, a tarefa de construir a infraestrutura de apoio (transito entre a Terra e a Lua das naves de transporte de carga e propelente e o desenvolvimento de um módulo de alunissagem), devido principalmente ao baixo preço oferecido pela empresa de Hawtorne.

Enquanto a ‘National Team’ de Bezos & cia se baseia numa abordagem conservadora e lastreada em tecnologias já existentes, a iniciativa da SpaceX confia todas as cartadas no seu desenho ainda incipiente de uma espaçonave/estágio superior/cargueiro unificado, o Starship. Este, um veículo testado com sucesso apenas uma vez após um voo atmosférico de cerca de 12 km terminado com um pouso vacilante, após várias explosões catastróficas, é fruto de uma abordagem nova – por exemplo, não inclui sistema de escape de emergência para eventuais tripulantes, e depende do desenvolvimento de sistemas de transferência de propelente criogênico no espaço (exigindo vários voos) – algo ainda não tentado.

Musk venceu a contenda apenas porque ofereceu o menor preço e, de fato, é o único que tem material já testado em voo no espaço (suas naves Carga Dragon ‘1’ , Crew Dragon e Cargo Dragon ‘2’ já são usadas pela NASA em missões à Estação Espacial Internacional há anos. Mas pouca tecnologia dessas espaçonaves será repetida na Starship: seus sistemas propulsivos, acessórios, e principalmente meios de lançamento são inerentemente novos. Ao escolher a SpaceX, a NASA optou pelo “que tinha à mão, pelo preço mais barato”, e também comprou as fichas da aposta de Musk neste jogo.

Resta saber se o contribuinte americano concordará em pagar, caso a mesa, no decorrer do jogo, virar-se contra os apostadores.

A Blue Origin postou um infográfico em seu site nesta semana, em que chama [acertadamente] a nave lunar da SpaceX de uma “abordagem imensamente complexa e de alto risco” para enviar “a primeira mulher e o próximo homem à Lua” em 2024. A NASA fez o anúncio inicial sobre os contratos do alunissador em abril de 2020. Ela premiou a equipe da Blue Origin com $ 579 milhões, a Dynetics com $ 253 milhões e a SpaceX com $ 135 milhões. A crítica veio poucos dias depois que o protesto da empresa de Jeff Bezos contra a decisão de conceder à SpaceX o contrato foi negado, e sugere que a Blue Origin não está encarando as perdas passivamente.

“Há um número sem precedentes de tecnologias, desenvolvimentos e operações que nunca foram feitas antes para a Starship pousar na Lua”, escreveu [corretamente] a Blue Origin no infográfico, que foi elaborado como uma comparação entre os módulos lunares das duas empresas.

Infográfico da complexidade da nave lunar
O infográfico afirma que a empresa de Elon Musk precisaria de mais de 10 lançamentos de Starships para pousar uma vez na Lua e precisa ser reabastecido em órbita, ‘um processo que também nunca foi feito antes.’

A SpaceX recebeu o contrato de US $ 2,9 bilhões, que foi supostamente muito menor do que o lance dos concorrentes. A Blue Origin, no entanto, recusou-se a aceitar a decisão e apresentou um protesto ao US Government Accountability Office (GAO). O ‘cão de guarda do Congresso’ divulgou sua conclusão na última sexta-feira, que concluiu que ‘a NASA não violou a lei ou regulamentação de compras quando decidiu conceder apenas uma premiação’, que foi base da argumentação da defesa da Blue Origin sobre o assunto.

Mas o infográfico sugere que a Blue Origin ainda está disposta a continuar a contenda. Jeff Bezos tem grande parte da mídia mainstream a seu lado (é dono de um dos mais influentes jornais dos EUA, o Washington Post, e foi dono da Amazon e certamente ainda tem influência em outras empresas do setor); Musk tem o apoio de vários jornalistas a seu soldo, e sites e blogueiros ‘especializados’ em Astronáutica com relações pouco explicadas com a SpaceX (alguns auferem lucro com a transmissão de testes rotineiros da empresa transformados em espetáculos em Boca Chica Starbase no Texas – que geram muitas visualizações no Youtube; outros usam o acesso liberado às instalações para alavancar seus sites); Elon sabe usar esse marketing tanto pago quanto a propaganda gratuita que os ‘especialistas’ de internet e os notórios ‘fanboys’, numerosos na América, que lhes dão audiência, divulgação viral de fotos, e fazem defesa aguerrida, na maioria das vezes sem embasamento técnico – de graça.

Enquanto afirma que a SpaceX precisaria de mais de 10 lançamentos de Starships, a Blue Origin destaca que faria o mesmo com três lançamentos da National Team com sistemas comprovados. A crítica continua com a Blue Origin atestando que a SpaceX não enviou qualquer nave em órbita de seu próprio local de lançamento. No entanto, a empresa de Musk já lançou mais de 100 foguetes Falcon 9 para a órbita (a bem da verdade a partir de plataformas alugadas à NASA) e tem um contrato de voos tripulados para a estação espacial internacional a soldo do governo americano, já tendo realizado três dessas missões) enquanto a empresa de Bezos enviou apenas uma cápsula tripulada suborbital a 100 km, além de catorze voos de teste. Além disso, anda a passo de tartaruga no desenvolvimento de um foguete reutilizavel de classe pesada. Mais ainda, está demorando anos para produzir e entregar motores para o foguete Vulcan da United Launch Alliance, cujo CEO Tory Bruno espera de modo que não pode ser classificado de paciente.

Um argumento que a National Team não explora como deveria é o fato de que a transferência de propelente em órbita – necessária para os 16 reabastecimentos de Starships (ou segundo Musk corrigiu recentemente, cerca de 10) – ainda é uma tecnologia não-testada e não comprovada em voo. A única nação com experiçência efetiva, operacional, em reabastecimento espacial é a Rússia, que aperfeiçoou um método de transferir propelente de naves cargueiras e estações espaciais. Mas isto é feito com elementos hipergólicos, à temperatura ambiente, e não com fluidos supergelados como é o caso do metano e oxigênio líquidos usados pela Starship.

Mais ainda, a SpaceX confiará na sua capacidade de produzir e lançar foguetes e naves reutilizáveis, e com a controversa filosofia de capturar o ‘booster’ (como eles chamam o primeiro estágio SuperHeavy reutilizável) por um sistema de sustentação (“Mechazilla” para os fãns de Musk) integrado à torre umbilical. Um erro na aproximação final de um booster de 70 metros de comprimento e cerca de 300 toneladas ao se aproximar pode levar à destruição das instalações de lançamento e subsequente perda de capacidade orbital. Por isso, a SpaceX precisa de pelo menos mais uma – ou duas – dessas torres/plataformas.

Isso reflete de fato a personalidade teimosa e obcecada de Musk com suas soluções ‘ousadas’ – o termo certo seria fúteis: Uma plataforma de pouso pavimentada atuando com um guindaste e uma mesa móvel de transporte (ativos já presentes na Starbase) fariam o trabalho de recuperação, reconfiguração e remontagem do foguete com agilidade comparável ao sistema de captura, sem os riscos inerentes de destruição da plataforma de lançamento. Mas o CEO é conhecido pelo temperamento errático e irascível, sendo mantido ainda sob (algum) controle por sua chefe de operações, Gwynne Shotwell, que é engenheira profissional, e uma das poucas empregadas a que ele de fato dá ouvidos.

Se por um lado Musk ajudou a popularizar a tecnologia espacial com seus voos de foguetes de primeiro estágio reutilizável (depois dos boosters SRB dos Space Shuttle da NASA), por outro deixou margem à uma torcida que só sabe de foguetes através de sua empresa, com conhecimento sofrível do que a Astronáutica de fato é como um todo. É sempre bom lembrar que o CEO da SpaceX já fez diversas promessas que não cumpriu, e que muitas dos suas apresentações espetaculosas de mídia foram na verdade esforços para incutir no imaginário popular a noção de que a sua empresa é capaz de coisas fantásticas, quando na verdade teve apenas o mérito de desenvolver um foguete de pouso vertical e reutilizável, enquanto outras empresas e governos não fizeram o mesmo – porque , simplesmente , julgavam mais barato construir um foguete de cada vez (para garantir que sua mão de obra continuasse empregada e que seu parque industrial permaneça ativo, como é o caso da Rússia – ou para não romper uma cadeia de produção já estabelecida, como é o caso da Arianespace européia).

Segue a argumentação da Blue Origin

A CADEIA DE SUPRIMENTOS

A Seleção Nacional é composta pela Blue Origin, Lockheed Martin, Northrop Grumman e Draper. Juntas, estão desenvolvendo um Sistema de Aterrissagem Humana para o programa Artemis da NASA para retornar os americanos à superfície lunar. A equipe traz décadas de experiência com sistemas de vôo espacial tripulado, veículos de lançamento, propulsão, logística orbital, missões no espaço profundo, navegação interplanetária e pousos planetários. A experiência combinada posiciona a NASA de maneira única para executar o programa Artemis.

A Blue Origin , como contratante principal, lidera o gerenciamento do programa, engenharia de sistemas, segurança e garantia de missão e engenharia de missão, enquanto desenvolve o Descent Element (DE) que é baseado no desenvolvimento plurianual do módulo lunar Blue Moon e seu motor BE- 7 .

A Lockheed Martin desenvolve o Ascent Element (AE) reutilizável e lidera as operações e o treinamento de voo com tripulação, aproveitando a herança de voo da espaçonave Orion.

Northrop Grumman constrói o Transfer Element (TE) que traz o sistema de pouso para a Lua com base em sua espaçonave Cygnus, que voou 13 missões de reabastecimento para a ISS.

A Draper lidera a orientação de descida e aviônica de vôo, aproveitando seus algoritmos avaliados por tripulação demonstrados em missões de exploração anteriores da NASA.

A amplitude da National Team: mais de 3.000 empregos em todos os EUA; US$ 618 milhões com pequenas empresas; US$ 273 milhões com centros da NASA

Abrangência da National Team

A National Team trabalha com mais de 200 empresas em 47 estados

A arquitetura da National Team é madura e flexível. Capaz de ter seus elementos lançados em vários foguetes existentes, o sistema é construído em tecnologias comprovadas que estão em operação hoje.

BLUE ORIGIN

Elemento de Descida Descent Element (DE)

A Blue Origin está desenvolvendo o Elemento de Descida baseado no módulo de pouso lunar Blue Moon e seu motor BE-7, que estão em desenvolvimento há três anos. As variantes podem atender a uma variedade de capacidades de transporte de tripulação e carga em qualquer lugar na superfície da Lua, incluindo o Pólo Sul lunar. A autonomia do módulo de pouso, orientação, arquitetura de pouso vertical, motores de propelentes líquidos potentes e reguláveis ​​e operações enxutas – alavancando tecnologias desenvolvidas e em serviço no foguete New Shepard.  

LOCKHEED MARTIN

Elemento Ascendente Ascent Element (AE)

A Lockheed Martin está fornecendo o Ascent Element da tripulação e liderando as operações e o treinamento de voo da tripulação. O Ascent Element baseia-se fortemente na experiência da Lockheed Martin no desenvolvimento da espaçonave Orion, desde itens de construção diretos até vários subsistemas comuns.

NORTHROP GRUMMAN

O Elemento de Transferência Transfer Element (TE)

Northrop Grumman Corporation fornece o Elemento de Transferência que traz o sistema de pouso em direção à Lua, maximizando a massa entregue para a tripulação e carga. O Transfer Element é baseado em seu módulo de carga Cygnus, que voou 13 missões de reabastecimento para a Estação Espacial Internacional.    

DRAPER

Aviônica de voo e orientação de descida

Draper lidera a orientação de alunissagem e aviônica de vôo, aproveitando algoritmos avaliados por tripulação que a empresa demonstrou em missões de exploração anteriores da NASA.

Sucesso depende de redundância

Desta vez para ficar

A abordagem da National Team para a sustentabilidade de longo prazo se concentra na reutilização para aumentar a acessibilidade. Missões mais capazes e mais longas para mais locais na superfície permitirão operações permanentes e sustentadas, habitação e desenvolvimento de recursos lunares. A National Team espera embarcar nas próximas etapas com a NASA e retornar à Lua – desta vez para ficar.

A Blue Origin destaca que seriam necessários apenas três lançamentos da Seleção Nacional com sistemas comprovados. A escotilha de saída da nave da SpaceX está a 38 metros solo, o que provavelmente obrigaria a usar elevadores para transportar os astronautas até a superfície lunar, enquanto a da Blue Origin está a 9,75 metros do solo e usaria uma escada simples para descer.


“Estamos indo para a Lua”

A parceria com a National Team traz a imensa experiência da NASA no desenvolvimento, integração e operação de sistemas de lançamento, espaçonaves com capacidade humana e aterrissagens planetárias. Isso dá à National Team uma vantagem inicial em todos os elementos necessários para o HLS. Além disso, um significativo investimento privado simultâneo oferece o melhor valor para o país. Com uma abordagem de lançamento flexível e arquitetura de sistema construída para a sustentabilidade – a Seleção Nacional vai enfrentar este ousado desafio.

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Autor: homemdoespacobrasil

Astronautics

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