Empresa americana de foguetes quer instalar fábrica em São José dos Campos

A Vaya Space, ex-Rocket Crafters, pretende abrir 200 postos de trabalhos no Brasil

Foguete Dauntless – já com a marca Vaya – imagem VayaSpace

Representantes da empresa norte-americana Vaya Space, que pretende abrir uma filial no Brasil, visitaram São José dos Campos/SP nesta semana. A Vaya Space, que até março tinha o nome de Rocket Crafters Inc., atuava no mercado de lançamento de pequenos satélites e de foguetes híbridos – sem no entanto haver lançado um foguete ainda. Em São José, os executivos da Vaya Space visitaram o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e o Parque Tecnológico, onde se encontraram com quinze empreendedores do setor aeroespacial, inclusive com a Avibras Aeroespacial. O foco é na tecnologia de foguetes de pequeno porte, possivelmente centrado inicialmente em foguetes de sondagem utilizando o know-how de ambas as empresas.
Representantes da empresa – o presidente Robert Fabian, Jack Blood – encarregado de vendas e marketing, e os representantes para o Brasil, Philip Newton e Cristiano Pinto – se encontraram com a diretoria da Avibrás e aventaram a possibilidade de assinar um manifesto de entendimento para a realização de empreendimentos conjuntos. Cerca de 26 pessoas trabalham para a Vaya atualmente em Cocoa, Flórida, cerca de 36 km ao sul do Centro Espacial Kennedy. A ideia da empresa é que a nova fábrica tenha 10 mil metros quadrados e gere cerca de 200 empregos diretos. Para a prefeitura, “São José dos Campos é candidata natural a receber o investimento, por ser a sede desse segmento no país”.

Dauntless – Vaya Space

A Vaya Space visa também o mercado smallsats, (pequenos satélites) oferecendo preços baixos para lançar cargas úteis em órbita, com um ciclo de construção, integração e lançamento pronto de menos de 30 dias, aumentando para uma frequência de lançamento semanal programada para atender à crescente demanda dos clientes. A empresa especializada em foguetes híbridos e lançadores de pequeno porte procura aproveitar os avanços na fabricação aditiva (por impressoras 3-D) para reduzir o custo, e aumentar o desempenho e a segurança do acesso ao espaço. Ela pretende atender ao mercado global e diz estar aceitando encomendas de lançamento para 2023.

Motor STAR-3D

Para isso, está desenvolvendo um foguete chamado Dauntless, projetado para lançamentos de satélites de até 1.000 kg. A tecnologia de propulsão do motor-foguete híbrido STAR-3D (Safe Throttleable Affordable Reliable 3DPrinted – Seguro ‘Acelerável’ Acessível Confiável Impresso em 3D) da empresa será a base de sua plataforma , com cerca de sessenta testes estáticos realizados até o momento. A Vaya Space diz estar preparada para participar do mercado “fornecendo serviços de lançamento seguros, ecológicos, acessíveis e confiáveis”. Seu líder de projetos é Kineo Wallace. Segundo a Vaya, seus motores STAR-3D são ‘mecanicamente simples’ que incluem apenas duas partes móveis, uma válvula liga / desliga principal e uma válvula borboleta. Os motores usam pressão diferencial para manter a pressão nos tanques do oxidante: gás hélio de alta pressão empurra o oxidante para o motor; como ‘apertar um tubo de pasta de dente’. Os motores podem então ser regulados através da quantidade de oxidante que entra no motor, permitindo que o empuxo seja ajustado conforme necessário. Diz a empresa que “…usando nossa tecnologia proprietária, os motores-foguete híbridos STAR-3D são produzidos por grãos de propelente de impressão 3D usando material termoplástico. O termoplástico sólido torna-se um combustível de alta energia quando combinado com o oxidante líquido e inflamado. Ambos são atóxicos e não são perigosos em temperatura ambiente. Isso significa que é muito mais seguro e só funciona como meio propulsor nas condições certas.”
“Se necessário, após a ignição, nossos motores podem ser desligados e reiniciados com segurança. Combinando manufatura aditiva, com componentes-chave de impressão 3D para reduzir o número de peças e a utilização de ‘componentes de prateleira’ (commercial-off-the-shelf COTS), seu processo reduz muito a complexidade e o custo. O design híbrido do motor STAR-3D também oferece maior confiabilidade, o que significa que requer menos manutenção e monitoramento durante o lançamento. A Vaya Space está revolucionando a ciência dos foguetes, um lançamento de cada vez. (apesar de não ter feito nenhum voo, efetivamente).

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Motor de teste “Comet”, parte do projeto STAR-3D – foto John Kraus

O plano para o Dauntless é transportar uma carga útil de 1 tonelada para a órbita baixa da Terra, ou seja, duas vezes mais poderoso do que o Intrepid, um projeto do qual a empresa cessou o desenvolvimento. O projeto do Dauntless o tornaria quase tão poderoso quanto o lançador Alpha da Firefly Aerospace, do Texas, que também está em desenvolvimento.

Foguete Dauntless

O foguete teria dois estágios, o primeiro (conforme se vê na ilustração do site da empresa) com quatro motores STAR-3D. O segundo estágio, um número não especificado de motores STAR-3D ; Sua fuselagem, cilindros de tanques, baias de motores e coifa de cabeça teriam 35 metros de comprimento, 2,5 m de diâmetro no primeiro estágio (2,15 m no segundo), com sua coifa de cabeça para carga útil também com 2,15m. O manual de usuário para carga útil (payload user guide) não está disponível, e o site da empresa está neste momento sendo atualizado. O peso bruto de decolagem de não é mencionado – mas deve estar em torno de 50.000 kg, nem o empuxo ao nível do mar dos motores do primeiro estágio (os modelos de STAR-3D testados tem 2.75o kgf de empuxo).

Falhas recorrentes em testes

Ao que parece, a Vaya mudou de nome para se desvencilhar de episódios malfadados recorrentes – o desenvolvimento do Intrepid vinha enfrentando dificuldades há seis anos. Em junho de 2019, a empresa convidou a mídia para testemunhar um teste de lançamento de seu motor Star-3D de 2.75o kgf de empuxo. Mas, em vez da chama laranja brilhante e da fumaça preta esperada como resultado da combustão, o que se viu foi um escapamento branco fumegante. A causa foi atribuída à umidade da Flórida saturando os componentes usados ​​para a ignição do motor.

Teste de motor híbrido – foto RCI
Técnicos da Rocket Crafters, hoje Vaya , em Cocoa – foto RCI

A mídia foi novamente convidada em julho seguinte, para nova demonstração, mas, novamente, houve pane: Após o teste de disparo por 1,5 segundos, a vedação de pressão do invólucro do ignitor falhou e fez com que o sistema desligasse automaticamente.
Depois, um dos testes do motor de prova “Comet”de 2.267 kgf de empuxo terminou em acidente, em 13 de fevereiro do ano passado, que resultou em destroços voando e pequenos incêndios em arbustos nas vizinhanças da aéra de prova. A empresa estava conduzindo o teste de rotina de um de seus motores por volta do meio-dia, quando “sofreu uma anomalia de sobrepressurização”, de acordo com um comunicado da empresa. “De acordo com o procedimento padrão, os técnicos foram afastados da área de teste antes do teste e ninguém no local ficou ferido durante o incidente”, continua a declaração. O Corpo de Bombeiros de Cocoa apagou os incêndios causados ​​pela explosão e a Rocket Crafters disse que investigaria a causa. “Apesar de termos sofrido danos em equipamentos e nas instalações (especificamente no muro de segurança do predio onde os motores são testados), são situações para as quais a nossa equipe está preparada e treinada”, afirmou a empresa. A “anomalia” foi novamente devido a umidade contaminando o sistema.

Os testes de prova de conceito do Comet foram precedidos por uma série de 49 experimentos de laboratório bem-sucedidos variando de 175 a 250 kgf de empuxo.

Cocoa-based rocket engine company Rocket Crafters suffered a mishap during its engine test fire Feb. 13, 2020 resulting in flying debris and small brush fires. The blue tarp is covering the damage occurred by the anomaly. No injuries were reported and the company is continuing to investigate the cause.
Stand de teste da Rocket Crafters, atual Vaya – foto Florida Today
Destroços em empresas próximas na Cidco Road em Cocoa depois que um teste de motor de foguete terminou em uma explosão em 2020. – foto Mike Farace

“Intrepid-1”

A Vaya, quando ainda era Rocket Crafters, vinha desenvolvendo o lançador Intrepid-1. O foguete teria dois estágios, o primeiro com quatro motores híbridos tipo RCI 125kN. O segundo estágio, com outros quatro motores híbridos RCI 17kN; Sua fuselagem, cilindros de tanques, baias de motores e coifa de cabeça teriam 23,5 metros de comprimento, 2,4 m de diâmetro, um peso bruto de decolagem de 34.405 kg, com o primeiro estágio desenvolvendo empuxo 50.985 kgf na decolagem.

O Intrepid-1 seria capaz de lançar as seguintes cargas (se lançado de Cabo Canaveral):

  • 415 kg a 750 km, inclinação de 39 °
  • 410 kg a 750 km, 45 °
  • 405 kg a 750 km, 51 °
  • 395 kg a 750 km, 57 °
  • 375kg a 750km, órbita sincrona com o sol – SSO (inclinação de 98°)
Motores projetados pela Vaya

O proposto Intrepid-1, com a marca RocketCrafters – arte RCI

O foguete vinha sendo desenvolvido há anos pela empresa, desde quando ainda era RocketCrafters, como o primeiro veículo de lançamento construído a partir de compostos de fibra de carbono impressos em 3D e com tecnologia avançada de motor de foguete híbrido. A empresa pretendia estrear o foguete no primeiro trimestre de 2019, mas não conseguiu. A Rocket Crafters planejava desenvolver as variantes “XL” e “XL+” do lançador. Anteriormente, a empresa tinha como especificações para o Intrepid – 16,2m de altura; diâmetro de 1,7 m; peso de decolagem de 24.200 kg; Dois estágios, sendo o primeiro com quatro motores híbridos Sparta-82B 82 kN de empuxo, e o segundo estágio com quatro motores híbridos Sparta-3V 2 de 3 kN de empuxo. Originalmente, teria capacidade de órbita síncrona com o Sol de 376 kg a 500 km, com opção de 220 kg a 750km – ou em órbita polar, com 250kg de carga a 750km.

Esquema de foguete com propulsão híbrida da Rocket Crafters

Hoje

A Vaya usa motores RCI (de Rocket Crafters Inc.) e detém a patente deles. Chamada D-DART (Direct-Digital Advanced Rocket Technology), o nome comercial dessa tecnologia, é o primeiro sistema de motores híbridos projetado para serem agrupados e funcionarem em sincronia. Os motores-foguete com capacidade de controle de aceleração (throttling) e re-ignição tipo D-DART foram projetados “para serem ajustados de forma rápida e econômica para atender altos perfis de empuxo e requisitos de missão.” O motor funciona com uma mistura de partículas de alumínio termoplástico de alta energia em nanoescala. Em julho de 2017, a Rocket Crafters ganhou um contrato de pesquisa de US$ 542.600 com a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) para construir e testar um motor híbrido em grande escala usando sua patenteada D-DART.

Rob Fabian, presidente da Vaya Space – foto Vaya Space

A empresa mudou de nome para Vaya Space “numa decisão baseada em sua transição de uma empresa focada em pesquisa e desenvolvimento para uma que está preparada para fazer parcerias com organizações, empresas e entidades governamentais em seus esforços de lançamento.” “Estamos muito animados para seguir em frente como Vaya Space. À medida que a empresa passou dos testes para o lançamento e venda de motores, determinamos que era importante comemorar a realização monumental com uma nova imagem”, afirmou o diretor de estratégia, Sean Mirsky.

Empresa planeja expansão

Rob Fabian disse que planeja contratar mais funcionários nos próximos meses. A Vaya levantou cerca de US $ 7 milhões em uma oferta privada recente, de acordo com documentos protocolados na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos em 11 de março. Fabian disse que o número estava perto de US $ 10 milhões arrecadados no ano passado, principalmente de investidores individuais. Os novos fundos e o rebranding seguem um ano difícil em 2020, quando o teste de disparo de um motor terminou em explosão. A empresa investigou o problema, determinou-o e corrigiu-o, disse Fabian.
Embora tenha se recusado a descrever o problema, Fabian disse que, desde o teste, a empresa trocou o óxido nitroso líquido por outro propelente e agora fará o teste com oxigênio líquido. A empresa planejou lançar um pequeno foguete experimental com seu motor STAR-3D patenteado em 2020 do Spaceport America no sul do Novo México, “mas a pandemia de coronavírus criou atrasos nos planos”, disse Fabian. Esse voo de teste agora está planejado para meados de 2021, disse ele, mas nenhuma data foi definida. O nome Vaya é retirado da expressão espanhola Vaya con Dios, ‘vá com Deus’, de acordo com o astronauta aposentado Sidney Gutierrez [*], que lidera a empresa como presidente do conselho. Gutierrez foi o primeiro hispânico a pilotar uma espaçonave da NASA – o ônibus espacial Columbia na missão STS-40 em 1991. Os controladores de lançamento marcaram a ocasião em parte dizendo a Gutierrez “Vaya con Dios” antes da decolagem.
“Com a mudança de marca, não estamos tentando nos divorciar do passado, mas queremos dizer que agora estamos emergindo com novos produtos e seremos um jogador”, disse Gutierrez numa entrevista.

“Muitas pequenas empresas de lançamento na indústria aeroespacial hoje irão falir antes de começarem a ser lançadas”, disse Phil Smith, analista sênior da Bryce Space & Technology, com sede na Virgínia. “Eu acho que [a Vaya] é viável no sentido de que eles realmente já fizeram alguns testes de ignição”, disse Smith. “Estamos interessados ​​em observar os contratos para avaliar o sucesso de uma empresa.” A Vaya tem cartas de intenções de duas empresas de serviços de lançamento e de uma pequena empresa de satélites, disse Fabian – mas ainda nenhum contrato de lançamento.

[*] Selecionado pela NASA em maio de 1984, Gutierrez tornou-se astronauta em junho de 1985. Em sua primeira missão técnica, ele serviu como comandante do Laboratório de Integração de Aviônicos (SAIL), voando em missões simuladas para verificar o software de voo do space shuttle. Após o acidente do Shuttle Challenger, ele atuou como oficial de ação para o Administrador Associado do Voo Espacial na sede da NASA. Suas funções incluíam coordenar solicitações da Comissão Presidencial e do Congresso dos EUA durante a investigação. Em 1986 e 1987, participou da recertificação dos motores principais do space shuttle, do sistema de propulsão principal e do tanque externo. Em 1988, ele se tornou o líder do Astronaut Office para o desenvolvimento, verificação e definição de requisitos futuros do Shuttle. Em 1989, ele apoiou o lançamento das missões STS-28, 30, 32, 33 e 34 no Kennedy Space Center na Flórida.
Veterano de dois voos espaciais, ele registrou mais de 488 horas no espaço. Ele foi o piloto da STS-40 (5 a 14 de junho de 1991) e o comandante da STS-59 (9 a 20 de abril de 1994). Depois de seu primeiro vôo, Gutierrez serviu como comunicador de espaçonave (CAPCOM) – a ligação de voz entre a tripulação de vôo e o controle da missão – para STS-42, 45, 46, 49 e 52. Em 1992, tornou-se Chefe do Escritório de Astronautas para Desenvolvimento de Operações , supervisionando lançamento, reentrada, aborto, software, encontro, sistemas de transporte, motores principais, boosters, tanque externo e questões de pouso e lançamento. Em setembro de 1994, Gutierrez aposentou-se da Força Aérea dos EUA e da NASA, voltou para sua cidade natal, Albuquerque, Novo México, e juntou-se aos Laboratórios Nacionais Sandia. De setembro de 1994 a março de 1995, atuou como Gerente do Departamento de Iniciativas Estratégicas. Em março tornou-se Gerente do Departamento de Sensores Aerotransportados e Integração do Centro de Desenvolvimento de Sistemas Exploratórios. Ele também atuou como presidente da Força-Tarefa do Espaçoporto do Comitê de Excelência Técnica do Gabinete do Governador. Gutierrez atua no Conselho de Administração da Texas-New Mexico Power Company e Goodwill Industries do Novo México e é membro da Comissão do Gabinete do Governador do Centro Espacial do Novo México.

Author: homemdoespacobrasil

Sua referência em Astronáutica na internet